Léia Alberti
Entre o coelho e a verdade
Quando a infância começa a mudar — e a gente aprende a lidar com isso
InocenciaTem uma fase da maternidade que não vem com manual — e, curiosamente, não tem nada a ver com fralda ou mamadeira. É aquela em que a gente começa a perceber que a infância já não é mais tão intacta assim. Aqui em casa, ela chegou silenciosa, sentada à mesa do café, entre um assunto e outro, com dois olhares bem diferentes: o do Paulo, aos 12, já desconfiado do mundo… e o da Nina, aos 9, ainda segurando firme o encanto.
E então vem o dilema: contar ou não contar sobre o coelhinho da Páscoa? Existe um momento certo para isso? Ou será que esse momento já passou e a gente nem percebeu? Porque, sejamos honestos, eles veem os ovos no mercado, entendem dinheiro, fazem contas… não é exatamente um grande mistério. A fantasia já não é tão convincente assim — mas, ainda assim, ela resiste. Talvez não pela lógica, mas pelo desejo.
E é aí que a dúvida aperta: será que somos nós, pais, que ainda precisamos dessa história? Talvez a gente prolongue o coelho não só por eles, mas por nós também. Porque contar a verdade não é só sobre revelar um segredo — é sobre aceitar que eles estão crescendo. E isso, convenhamos, nunca é simples.
Talvez o caminho não seja “contar” de uma vez, como quem quebra um encanto, mas ir permitindo que eles descubram, no tempo deles. Porque crescer também é isso: perceber as coisas aos poucos, sem que alguém precise anunciar o fim da magia. E quem sabe, no meio desse processo, a gente descubra que a inocência não desaparece… ela só muda de lugar.
No fim, talvez o coelhinho da Páscoa continue existindo — não mais como personagem, mas como memória, como afeto, como aquilo que a gente escolhe guardar. E isso, sinceramente, já é bonito o suficiente.




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