Laercio Beckhauser
O intervalo da existência: a arte de viver entre dois silêncios
CRÔNICA JORNALÍSTICA BECKHAUSERIANA
O intervalo da existência: a arte de viver entre dois silêncios CRÔNICA JORNALÍSTICA BECKHAUSERIANA
— O intervalo da existência: a arte de viver entre dois silêncios
Em uma era marcada pelo consumismo acelerado, pelas disputas materiais e pela efemeridade digital, uma pergunta antiga ressurge — silenciosa, mas insistente:
qual é, afinal, o sentido da existência humana, se nascemos sem nada e partimos sem levar coisa alguma?
A questão atravessa séculos, religiões, filosofias e culturas.
Não há resposta única — e talvez nunca haja.
Entre os existencialistas, como Jean-Paul Sartre, prevalece a ideia de que o ser humano não encontra sentido pronto — ele constrói.
Escolha após escolha.
Ato após ato.
Responsabilidade após responsabilidade.
Outros olhares, menos angustiados e mais contemplativos, sugerem algo igualmente desconcertante: o verdadeiro patrimônio humano não reside no que se acumula, mas no que se vive.
Experiências.
Vínculos.
Legados.
A consciência da finitude, longe de ser um convite ao pessimismo, revela-se um chamado à lucidez.
Valoriza o presente.
Refina o olhar.
Humaniza o tempo.
No cotidiano, essa compreensão se manifesta de forma quase invisível.
Cultivar amizades.
Transmitir conhecimento.
Ajudar sem plateia.
Contemplar a natureza.
Preservar memórias.
Buscar sabedoria — não apenas riqueza.
Em uma sociedade que corre, muitos começam a perceber que o verdadeiro valor da vida talvez esteja justamente no intervalo.
Esse espaço intangível entre o nascimento e a despedida.
É ali que tudo acontece.
É ali que tudo se escreve.
Crônica — O Intervalo
Nascemos chorando.
E partimos em silêncio.
Entre esses dois extremos, existe o grande intervalo humano: a vida.
Há quem atravesse esse tempo acumulando objetos, títulos, cifras — como se fosse possível negociar permanência com o destino.
Outros, porém, compreendem cedo:
o essencial não cabe em cofres.
O que permanece são os gestos.
Os abraços sinceros.
As palavras que acolheram.
As árvores plantadas.
Os filhos orientados.
Os amigos preservados.
Os livros escritos.
As flores cultivadas.
A vida não é propriedade.
É travessia.
Chegamos nus.
Partimos despojados.
Levamos apenas aquilo que construímos dentro de nós — e aquilo que fomos capazes de deixar nos outros.
Talvez por isso a maturidade traga outro ritmo.
Os jardins passam a ser observados com mais calma.
Os pássaros, ouvidos com mais atenção.
Os encontros, valorizados mais do que as posses.
O tempo deixa de ser medida de produtividade — e passa a ser medida de sentido.
No fim, uma constatação se impõe, simples e inevitável:
viver nunca foi carregar o mundo nos ombros.
Foi — e sempre será — tocar almas durante a caminhada.
E essa, curiosamente, é a única herança que o tempo não consegue apagar.
Conclusão
A existência humana não se mede pelo acúmulo, mas pela partilha.
O verdadeiro patrimônio da vida está nas experiências vividas, nos afetos cultivados, no conhecimento transmitido e na capacidade de deixar o mundo um pouco melhor do que foi encontrado.
A matéria desaparece.
Mas os gestos… permanecem.
Frase-síntese beckhauseriana
“A vida não se mede pelo que possuímos, mas pelas marcas invisíveis de humanidade que deixamos no coração do tempo.”




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