Wagner Dias - PodMorar

A ilha que não se vende, se vive

São Francisco do Sul

Foto: Divulgação
A ilha que não se vende, se vive

São Francisco do Sul não se explica em números, mapas ou gráficos de valorização. Ela se conta. E, ouvindo Diogo Truppel falar, a sensação é de que a ilha vai se revelando como quem puxa uma conversa antiga na beira da praia, sem pressa, deixando o tempo fazer o seu trabalho.

A história dele começa antes dele mesmo. Começa nos bisavós, na primeira agência marítima da cidade, quando São Francisco ainda se entendia mais como porto do que como destino. Há cidades que crescem para fora; São Francisco cresceu para dentro, guardando memórias, histórias de família e um jeito próprio de existir. Talvez por isso Diogo nunca fale da cidade como “cidade”. Ele fala como quem fala de uma ilha, quase um organismo vivo, cercado por água, natureza e escolhas.

Foi ali que o surf entrou na equação. Não como hobby, mas como bússola. Quem conhece o litoral catarinense sabe que as águas mudam de humor conforme se desce o mapa. São Francisco tem essa gentileza rara: mar bom, menos gelado, praias que acolhem. Praias que não gritam, mas chamam. E quem surfa aprende cedo a escutar o mar antes de decidir entrar.

Ao lado da ilha, Joinville sempre esteve presente como apoio, escola, trabalho, ponto de partida. Foi lá que Diogo estudou, construiu amizades, iniciou a carreira bancária. O banco ensinou números, crédito, risco, tempo. O empreendedorismo veio depois, em outros ramos, no varejo, testando caminhos antes de chegar ao destino que, no fundo, sempre esteve no horizonte: o mercado imobiliário. Não foi um salto. Foi uma travessia.

Quando fala de vender imóveis, Diogo desmonta o mito da persuasão. Ninguém precisa ser convencido a querer uma casa na praia. Quem procura já decidiu. O trabalho está menos em empurrar e mais em traduzir. Traduzir a ilha. Traduzir o estilo de vida. Traduzir o futuro.

E o futuro, ali, parece caminhar de sandálias, respeitando o chão. São Francisco cresceu diferente. Enquanto outras cidades primeiro levantaram prédios para depois pensar em infraestrutura, a ilha fez o contrário. Cuidou da natureza, preservou parques, investiu em saneamento, protegeu restingas, ouviu a biologia marinha antes do concreto. Parque do Acaraí, projeto das toninhas, centro histórico preservado, bandeiras azuis tremulando como certificados silenciosos de qualidade. Tudo isso antes do boom.

Talvez por isso investir ali ainda soe como segredo bem guardado. Não é urbana demais, nem rústica demais. Tem praias para vela, surf, mergulho, pesca, ciclismo, triatlo. Tem marinas, calçadões, ciclovias novas, mas também dunas, rios, parques, silêncio. Capri com sua elegância calma, Itaguaçu residencial e discreta, Ubatuba pulsando comércio e vida o ano inteiro, Enseada com seu ar de vila que acolhe famílias, Prainha disputada como verso raro, Praia Grande cercada por água doce, salgada e verde.

Existe a BR-280, é verdade. Um gargalo que todo mundo conhece, comenta, reclama. Mas Diogo fala disso como quem olha o mar em ressaca: sabe que passa. Há obras, alternativas, rotas paralelas, projetos estaduais, pontes desenhadas no futuro próximo. E, curiosamente, o trânsito nunca foi suficiente para afastar quem realmente quer estar ali. As pessoas se adaptam. Mudam horários. Trabalham remoto. Criam novos ritmos. O desejo encontra caminho.

Talvez o ponto mais bonito da conversa seja quando Diogo fala sobre olhar. Ou sobre deixar de olhar. Quem mora perto demais, às vezes, esquece de ver. O nascer do sol vira fundo de tela. O pôr do sol, rotina. O mar, paisagem. São os de fora que chegam com os olhos acesos, quase sem dormir, querendo aproveitar cada segundo, cada onda, cada mergulho. Eles escolhem São Francisco como base, mesmo podendo ir a Balneário, Florianópolis ou qualquer outro cartão-postal famoso. Querem o abraço da natureza, não o palco.

No fundo, a crônica de São Francisco do Sul é sobre isso: aprender a valorizar o que está perto. Às vezes é preciso sair para entender. Às vezes é preciso ouvir alguém contar para perceber que aquela ilha não é só um lugar para investir, morar ou veranear. É um convite silencioso para viver diferente.

E talvez seja exatamente agora, enquanto ela ainda caminha devagar, que faz mais sentido prestar atenção. Porque há cidades que crescem rápido demais e perdem o que tinham antes mesmo de entender o que eram. São Francisco, não. Ela segue ali, ilha antes de cidade, história antes de promessa, esperando que a gente volte a olhar.



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