Willian Giesel

A mente que mente: dissonância cognitiva e o silêncio que mata

Como a busca pelo conforto mental nos torna cegos para a violência e reféns de narrativas convenientes.

Willian Giesel Silva
A mente que mente: dissonância cognitiva e o silêncio que mata Entre os dados de feminicídio em SC e a lógica dos algoritmos, Willian Giesel analisa como a dissonância cognitiva molda nossa percepção da verdade e da responsabilidade.

Quando a realidade confronta nossas conveniências, ajustamos a narrativa para preservar o conforto. O problema é que esse “ajuste” custa vidas.

Vivemos a era do excesso. De informação, de opinião, de versões e, paradoxalmente, da escassez de verdade. A realidade se fragmenta com a mesma velocidade com que a luz se decompõe em um prisma. Nunca tivemos tanto acesso a dados e nunca foi tão difícil concordar sobre fatos básicos. Esse paradoxo tem nome antigo e efeito absolutamente atual: dissonância cognitiva.

Ela surge quando a realidade bate à porta e encontra resistência. É um tipo de falha silenciosa no sistema operacional da mente, que acontece quando fatos confrontam crenças, identidades ou conveniências. Para preservar o conforto, buscamos atalhos: ajustamos a narrativa, relativizamos a violência, terceirizamos a culpa. Não porque não entendemos, mas porque entender exige responsabilidade.

Essa dissonância deixou de ser apenas um fenômeno individual. Tornou-se parte do tecido social que nos mantém anestesiados diante de problemas urgentes. Um deles, talvez o mais brutal, é a violência contra a mulher.

O incômodo necessário

Na semana passada, publiquei um texto sobre feminicídio aqui na coluna. Caso tenha interesse de ler, clique aqui. A repercussão foi grande. Mas não há motivo para comemoração. O objetivo não era engajamento nem capital simbólico. Era provocar um incômodo necessário: admitir que a violência contra a mulher não é um problema “deles”, nem “do sistema”, nem de “casos isolados”. É um problema nosso, dos homens, enquanto coletivo. E a repercussão apenas confirmou o quanto esse incômodo ainda é urgente.

Enquanto discutimos narrativas, os dados seguem implacáveis. Em Santa Catarina, encerramos 2025 com 52 feminicídios registrados. Uma morte por semana. Um retrato alarmante para um estado frequentemente exaltado como referência em segurança, mas que insiste em não olhar para a própria cultura.

O feminicídio não nasce no ato final. Ele germina muito antes: na omissão cotidiana, na piada tolerada, no controle romantizado, no “nem todo homem” usado como escudo moral. A dissonância aparece quando nos declaramos contra a violência, mas seguimos protegendo as estruturas que a permitem.

Errar não é ignorância. Persistir no erro, sim.

Existe um medo silencioso que atravessa todo esse debate: o de que mudar de ideia seja sinal de fraqueza intelectual. Como se admitir um erro fosse confessar ignorância. É exatamente o contrário.

Ignorância não é estar errado. Ignorância é continuar defendendo um erro apenas para não admitir que esteve errado por tempo demais.

Mudar de posição não diminui ninguém. Amplia. A história do pensamento humano avança justamente porque alguém teve coragem de revisar certezas. Nenhum grande intelectual ficou conhecido por defender convicções imutáveis. Ficaram conhecidos porque revisaram, corrigiram e refutaram a si mesmos. A honestidade intelectual nasce desse gesto.

Há uma maturidade rara em dizer “aprendi”, “mudei”, “isso já não me representa”. A rigidez, muitas vezes confundida com firmeza, costuma ser apenas medo. Medo de perder pertencimento, identidade ou autoridade. Mas identidade que não suporta revisão não é pensamento. É dogma.

Comoção seletiva e a pedagogia da indignação

Nos últimos dias, o caso do cachorro Orelha mobilizou o país. A brutalidade do crime, a revolta coletiva, a exigência por punição exemplar. Tudo isso é legítimo. Crimes dessa natureza precisam, sim, de resposta dura do Estado e da sociedade.

A dissonância aparece no contraste. Por que essa mesma comoção raramente se repete diante de um feminicídio? Por que corpos de mulheres assassinadas não provocam o mesmo coro, a mesma urgência moral, o mesmo compartilhamento em massa?

Não se trata de hierarquizar dores. Trata-se de interrogar o silêncio relativo diante da violência contra mulheres. A pergunta incômoda não é “por que nos indignamos com um caso?”, mas “por que não nos indignamos da mesma forma com tantos outros?”. A seletividade da empatia revela mais sobre nossa cultura do que gostaríamos de admitir.

Nesse terreno, as fake news prosperam. A emoção antecede o fato. A narrativa vem antes da apuração. O “saber” vira “achar”. O compartilhamento substitui o entendimento. A dissonância não está apenas no erro factual, mas naquilo que escolhemos sentir — e no que escolhemos ignorar.

Quando o patriarcado aperta o gatilho

Nesta semana, outro caso chocou o Brasil: um pai matou os dois filhos e depois tirou a própria vida, deixando uma carta em que atribuía o ato à suposta traição da esposa.

É preciso dizer com clareza: não foi “crime passional”.
Não foi “excesso de emoção”.
Não foi um surto inexplicável.

Foi a expressão mais brutal de uma lógica antiga: a de que a mulher é propriedade e que a família é extensão da honra masculina.

Quando a traição vira justificativa para matar, não estamos diante de ciúme. Estamos diante de uma estrutura cultural que ensina homens a confundirem vínculo com posse, amor com domínio, frustração com direito à vingança. Nesse imaginário, a autonomia feminina é interpretada como afronta, e os filhos deixam de ser sujeitos para se tornarem instrumentos de punição.

Isso não nasce em um instante. É cultivado ao longo de décadas por discursos que romantizam o controle, por narrativas que tratam a mulher como extensão do homem e por uma cultura que ainda flerta com a ideia de que honra masculina pode ser “manchada” pela liberdade feminina.

O Direito não pode romantizar esse tipo de violência.
A sociedade também não.

Quando manchetes usam termos como “crime passional”, ajudam a suavizar o que é, na verdade, violência estrutural. Palavras importam. Elas moldam a percepção pública e, consequentemente, a tolerância coletiva.

Enquanto tratarmos posse como amor e controle como cuidado, continuaremos enterrando vítimas.

E aqui a dissonância cognitiva aparece novamente. Dizemos que defendemos a família, mas naturalizamos comportamentos que a destroem. Falamos em proteção às crianças, mas ignoramos os modelos de masculinidade que transformam frustração em violência.

O problema não é a emoção. É a estrutura que legitima a emoção como autorização para matar.

A falsa guerra de dois lados

Vivemos uma politização que empobrece o debate ao reduzi-lo a um jogo binário. Dois lados. Dois times. Duas versões absolutas. Como se a realidade fosse obrigada a caber em fronteiras ideológicas rígidas.

Nesse modelo, pensar vira traição. Questionar vira fraqueza. O resultado é devastador: as pessoas deixam de formar opinião e passam a adotar opiniões terceirizadas. Não interpretam, repetem. Não refletem, endossam.

O exemplo religioso é emblemático. Muitos que se dizem cristãos jamais leram a Bíblia de forma integral e reflexiva. Conhecem apenas a versão mediada por líderes ou influenciadores. A fé, quando não dialoga com pensamento crítico, vira obediência discursiva. E isso se repete na política, na cultura e no mercado.

Troca-se o esforço de pensar pelo conforto de pertencer. E pertencimento sem pensamento é terreno fértil para a violência simbólica e, depois, para a violência real.

Comunicação não é neutra

Aqui o tema atravessa diretamente o meu campo de atuação. Comunicação não é ruído neutro. Marketing não é apenas persuasão; é construção de sentido. E sentido molda comportamento.

Quando priorizamos o algoritmo em vez do contexto, a polarização em vez da reflexão, estamos ajudando a reproduzir o sistema que mata. O comunicador que ignora o impacto social para focar apenas em métricas torna-se um analfabeto funcional da cultura.

Fake news não precisam ser verdadeiras. Precisam apenas ser confortáveis. A verdade, ao contrário, costuma ser ambígua e exigir revisão de posição. E revisar posição dói.

IA e a infraestrutura ética

Em Santa Catarina, polo de inovação e tecnologia, temos o dever de usar a Inteligência Artificial não para replicar preconceitos, mas como infraestrutura ética. A tecnologia não cria valores. Ela replica os nossos. Se os dados estão enviesados pela nossa própria dissonância, o resultado será uma barbárie em escala tecnológica.

A pergunta final não é “de que lado você está?”. É outra, bem mais incômoda: o que você está disposto a rever? O que você está disposto a desaprender para que menos mulheres morram e menos mentiras prosperem?

Silenciar hoje não é neutralidade. É escolha. E toda escolha carrega o peso da sua consequência. A verdade raramente grita. Mas ela insiste. Insiste até que não possamos mais fingir que não ouvimos o ruído que nós mesmos ajudamos a criar.

Sobre o autor


Willian Giesel Silva é apaixonado por formatos inovadores e acorda todos os dias para desafiar o comum. Publicitário, designer gráfico e provocador de ideias, atua onde estratégia encontra estética e onde criatividade precisa resolver problemas reais. Gosta de liderar a mudança, mas respeita o ritual.

Observa Santa e Bela Catarina com carinho e otimismo e transforma esse olhar em textos sobre marketing, inteligência artificial e comportamento digital. Co-líder da IdeiAzul, acredita que criatividade é trabalho coletivo e que boas soluções nascem do encontro entre visão, método e ousadia.


Saiba mais em: ideiazul.com | Instagram: @williangiesel | Email: willian@ideiazul.com




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