Israel Aparecido Gonçalves
O monstro está solto e é difícil colocá-lo novamente na jaula
DivulgacaoA ação do governo de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã fere princípios fundamentais do direito internacional e dos direitos humanos. As Organização das Nações Unidas (ONU) mais uma vez sequer foram devidamente consultadas. A crescente irrelevância da ONU e, em particular, de seu Conselho de Segurança, evidencia a fragilidade das instituições internacionais no século XXI e a crise da governança global.
A coalizão formada por Israel e Estados Unidos realizou ataques que atingiram alvos civis, incluindo uma escola primária no Irã. Relatos indicam que mais de 150 crianças foram mortas, o que configura, à luz do direito internacional humanitário, um possível crime de guerra. Paradoxalmente, países que afirmam agir para libertar um povo de um regime autoritário acabam por provocar a morte de civis inocentes.
Os ataques também atingiram a estrutura política do país, eliminando parte significativa da cúpula governamental iraniana, incluindo o chamado líder supremo, o aiatolá. Esse tipo de ação aprofunda ainda mais a instabilidade regional e aumenta o risco de escalada militar.
Este texto não defende, em nenhuma hipótese, o regime iraniano. No entanto, uma injustiça não pode ser substituída por outra. Uma guerra aberta, na qual civis se tornam vítimas diretas, nunca deveria ser considerada uma solução aceitável. É evidente que as forças armadas iranianas enfrentam dificuldades para controlar plenamente seu espaço aéreo e responder de forma imediata aos ataques. Justamente por isso, uma potência militar que detém superioridade tecnológica e estratégica deveria ser capaz de conduzir operações militares com maior cuidado para evitar vítimas civis.
Também é importante lembrar que o Irã vinha mantendo negociações com os Estados Unidos sobre a redução do enriquecimento de urânio, e havia expectativa de avanços diplomáticos. Diante dos acontecimentos recentes, surge a percepção de que essas negociações foram utilizadas como instrumento de adiamento, enquanto se preparava o momento mais favorável para a ofensiva militar.
As promessas feitas por Donald Trump durante o período eleitoral, de que não levaria os Estados Unidos a novos conflitos, acabam sendo colocadas em xeque. O novo ataque ao Irã, somado a episódios anteriores, reforça a percepção de que a política externa norte-americana continua marcada pela lógica da intervenção militar.
Do ponto de vista geopolítico, a questão vai além do petróleo. O que parece estar em jogo é uma tentativa de promover uma mudança de regime no Irã, algo que, historicamente, tende a produzir resultados incertos e frequentemente desestabilizadores. Além disso, há um elemento estratégico global: a posição geográfica do Irã é central nas rotas que conectam a Ásia ao Oriente Médio. Um eventual controle ou enfraquecimento do país poderia alterar o equilíbrio logístico regional e impactar diretamente a posição da China no cenário internacional.
Diante desse cenário, a sensação é de que o “monstro” da guerra voltou a ser liberado. E, uma vez solto, é extremamente difícil recolocá-lo na jaula. O risco é que novos conflitos se expandam, envolvendo outras potências e colocando em perigo a estabilidade global. Hoje é o Irã; amanhã, pode ser qualquer outro país que não aceite se submeter à lógica das grandes potências.
Israel Aparecido Gonçalves é cientista político e escreve sobre Relações Internacionais, Conflitos e Direitos Humanos. Seu livro mais recente é “Sociologia e Direito – Volume 3”, lançado pela Editora Periodicojs em 2025.




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