Laercio Beckhauser
A vida como ela é… ou como cada um insiste em enxergar
CRÔNICA JORNALÍSTICA BECKHAUSERIANA
A vida como ela é… ou como cada um insiste em enxergarCRÔNICA JORNALÍSTICA BECKHAUSERIANA
— A vida como ela é… ou como cada um insiste em enxergar
Há quem acorde com o canto dos pássaros.
Há quem desperte com o barulho do mundo.
O curioso — e quase irônico — é que, muitas vezes, ambos acordam no mesmo lugar.
A vida, ao contrário do que desejariam os pragmáticos de plantão, não se apresenta em versão definitiva. Não há rótulo, bula ou manual de instruções. O fato bruto — esse tijolo da realidade — chega neutro, frio, quase indiferente.
Mas basta atravessar o filtro humano para que tudo se transforme: drama, poesia, tragédia ou, em dias menos nobres, uma comédia pastelão.
Sob a lente individual, um atraso vira ofensa.
Um silêncio vira desprezo.
Uma chuva vira melancolia.
Ou, dependendo do espírito:
o atraso vira tempo ganho,
o silêncio vira paz,
e a chuva — ah, a chuva! — vira trilha sonora de memórias que ainda nem aconteceram.
A redação invisível da existência trabalha sem descanso.
Bilhões de editores emocionais revisam, diariamente, os acontecimentos conforme seu humor, seus traumas, suas expectativas — e, sobretudo, suas convicções.
O mundo, no fundo, não muda.
Muda o narrador.
E é aqui que a sátira se impõe, com elegância quase debochada: o ser humano exige objetividade do universo, mas vive mergulhado na mais absoluta subjetividade. Quer verdades sólidas, mas interpreta tudo como se fosse espuma.
O pessimista — esse cronista incansável do infortúnio — encontra rachaduras até no mármore.
O otimista, por vezes ingênuo, planta flores no concreto e ainda se surpreende quando algumas nascem.
Ambos estão certos.
E ambos estão equivocados.
Porque não descrevem o mundo — descrevem a si mesmos.
A psicologia chama isso de projeção.
A filosofia, de percepção.
A vida, mais prática e menos paciente, chama isso de consequência.
Quem vê ameaça em tudo acaba vivendo sitiado.
Quem enxerga possibilidade, ainda que tropece, segue em movimento.
E movimento, convenhamos, é o único antídoto confiável contra a estagnação da alma.
Mas não nos enganemos: há um certo conforto em culpar o mundo.
É mais fácil acusar a paisagem do que ajustar a lente.
Mais cômodo reclamar do roteiro do que admitir que somos, ao mesmo tempo, atores, diretores e — não raramente — críticos implacáveis de nós mesmos.
A grande ironia — digna de manchete — é que muitos passam a vida esperando que a realidade mude, quando, em certos casos, bastaria uma leve inclinação no olhar.
Não se trata de ingenuidade otimista.
Tampouco de negar as dores legítimas da existência.
Trata-se de reconhecer que entre o fato e o sentimento existe um espaço.
E é justamente nesse espaço que reside a liberdade mais sofisticada do ser humano: a interpretação.
No fim das contas, a vida como ela é… talvez nunca seja acessada em sua forma pura.
O que temos, de fato, é a vida como cada um a traduz.
E, nessa tradução, alguns escrevem epopeias.
Outros, boletins de ocorrência.
E assim seguimos — não vivendo o mundo, mas narrando-o.
Com tintas próprias, exageros inevitáveis e, vez ou outra, lampejos de lucidez.
Porque, em última análise, não vemos as coisas como elas são.
Vemos como somos.
E isso, caro leitor, explica quase tudo — inclusive o inexplicável… e talvez até o inefável.




COMENTÁRIOS