André Bovenzi

O carnaval político de Santa Catarina

Blocos, trios elétricos e o que as pesquisas enxergam quando a música ainda está alta


O carnaval político de Santa Catarina

Antes mesmo do carnaval começar oficialmente, a política catarinense já entrou na avenida. Tem bloco aquecendo bateria, dirigente disputando espaço no trio, fantasia sendo ajustada às pressas e muito empurra-empurra antes do primeiro acorde.

Em Santa Catarina, o cenário pré-eleitoral virou um carnaval antecipado. E, como em todo carnaval, o barulho vem antes da organização. Quem olha só para o som alto, perde o principal: quem tem fôlego para atravessar o desfile inteiro.

É exatamente aí que a pesquisa eleitoral entra como ferramenta central. No meio da folia, ela não serve para coroar vencedor, serve para separar bloco organizado de bloco improvisado.

O PL, partido que governa o Estado com o Governador Jorginho Mello, puxa o trio principal. Tem máquina, visibilidade e a vantagem natural de quem já está no palco. Mas liderar o desfile também traz o maior risco do carnaval político: trio cheio demais e pouco espaço para erro.

A vaga de vice parecia resolvida com Adriano Silva, prefeito de Joinville com quase 80% dos votos, um nome com capital eleitoral e peso regional. No Senado, uma das vagas já estava encaminhada com Carlos Bolsonaro. A outra virou um abacaxi carnavalesco, envolvendo Carol de Toni, a pressão da executiva nacional do PL e o acordo com o União Progressista, que exige espaço para Esperidião Amin.

Foi nesse contexto que o Presidente Nacional do PL, Valdemar Costa Neto, sugeriu uma saída, que, no papel, parecia elegante: Carol de Toni como vice na chapa de Jorginho, porém, carnaval político não aceita improviso sem custo. Jorginho desfaz o convite feito a Adriano ou mantém a palavra dada e enfrenta a pressão nacional?

Qualquer caminho cobra pedágio - político e eleitoral.

E o desfile ganhou mais um carro alegórico inesperado.

Carlos Bolsonaro ligou diretamente para João Rodrigues, Prefeito de Chapecó e pré-candidato ao governo pelo PSD, pedindo para disputar o senado pela sigla. Pouco depois, veio a informação de que Jair Bolsonaro, hoje preso, solicitou autorização para receber João Rodrigues. A pergunta deixou de ser curiosidade de bastidor e virou questão estratégica: o que sai dessa conversa?

Esse movimento muda o carnaval de patamar. O jogo deixa de ser apenas estadual e passa a ser nacional. O PSD, que vinha ensaiando um desfile organizado, com discurso próprio e foco em alianças amplas, entra no radar do bolsonarismo como possível rota alternativa. Pesquisa, nesse momento, não mede só intenção de voto, mede elasticidade do eleitor, rejeição cruzada e risco de descaracterização do bloco.

O NOVO, que hoje divide o mesmo trio do PL, sente diretamente esse descompasso. Adriano Silva foi um dos muitos Prefeitos que se posicionaram contra a vinda de Carlos Bolsonaro para Santa Catarina. Agora, no mesmo desfile, pode ter que dividir palanque e pedir voto. É o clássico momento carnavalesco em que o bloco aceita subir no trio e só depois descobre quem escolheu a música.

Pesquisa capta esse tipo de contradição antes da campanha esquentar. Não aparece como queda imediata de voto, mas surge como aumento silencioso de rejeição, aquele desgaste que cresce enquanto o barulho distrai.

O PSB entra como um bloco que tenta conversar com públicos distintos. A filiação de Gelson Merísio aponta essa estratégia. Mas há um detalhe importante que o eleitor não esquece e que a pesquisa costuma revelar: no passado, Gelson já se declarou bolsonarista. Isso amplia seu alcance potencial junto à centro-direita, mas também exige um discurso muito bem calibrado para não perder credibilidade entre eleitores mais alinhados à esquerda.

Aqui, a metáfora do carnaval ajuda: trocar de fantasia é permitido, mas trocar de identidade sem explicação costuma cobrar preço.

O MDB tenta lamber as feridas e precisa agir rapidamente. Avalia se entrega os cargos que tem no governo e decide se entra em outro bloco, se monta desfile próprio ou se espera o momento certo. O PSD segue ensaiando com disciplina, agora sob holofote maior. O PT trabalha pensando no segundo turno. E o União Progressista só entra no desfile se tocar sua própria música.

Tudo isso acontece sem pesquisas registradas no TSE, o que aumenta o ruído. Cada bloco "apresenta" seus "bons números", mas sem dados públicos, o que prevalece é narrativa, e convenhamos, carnaval é fértil para narrativas.

Por isso, nesse momento, pesquisa não é sobre liderança. É sobre resistência. Ela ajuda a responder perguntas que o barulho não responde:

- Quem sustenta alianças contraditórias?
- Quem muda de fantasia sem perder identidade?
- Quem começa forte, mas termina sem bateria?

Quando a quarta-feira de cinzas chegar, o confete cai, a música baixa, e o eleitor passa a observar com mais atenção. É aí que decisões improvisadas, conversas de bastidor e discursos mal explicados aparecem nos números.

O carnaval passa, a campanha começa.

E na política catarinense, quem muda o passo no meio do desfile precisa explicar muito bem quando a avenida esvazia - porque a pesquisa sempre registra quem saiu da festa mais forte e quem saiu devendo explicação.


Curiosidade da semana

Em cenários fragmentados, como o atual em Santa Catarina, as pesquisas passam a observar menos intenção de voto isolada e mais indicadores como rejeição, transferência de voto e consistência das respostas ao longo do tempo.

É nesses indicadores que aparecem, antes da campanha oficial, os sinais de quem tem teto baixo, quem tem espaço para crescer e quem não sustenta alianças contraditórias.


André Bovenzi
Diretor da DNA Pesquisas
Instagram: @andrebovenzi | @dnapesquisas
Facebook: André Bovenzi | DNA Pesquisas





COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.