André Bovenzi
A primeira pesquisa eleitoral de 2026
O jogo ainda não começou
A primeira pesquisa eleitoral, a nível nacional, registrada em 2026 foi divulgada recentemente pelo Meio/Ideia e, como toda largada, gerou ansiedade, manchetes apressadas e interpretações precipitadas. Mas é preciso colocar as coisas no lugar certo: essa pesquisa não prevê o futuro. Ela revela o presente. E o presente político brasileiro é de indefinição organizada.
Na pergunta espontânea, o eleitor faz exatamente o que se espera dele em um cenário ainda distante da eleição: recorre à memória. Lula e Bolsonaro dominam as citações não porque a decisão esteja tomada, mas porque ainda são as referências mais fortes disponíveis. Pesquisa espontânea mede lembrança, não convicção e isso não pode ser taxado como favoritismo.
Esse dado, inclusive, trás um recado duro para o restante do campo político. Se o eleitor não cita - o nome ainda não existe. Vários pré-candidatos simplesmente não estão no radar da maioria da população. Antes de disputar voto, precisam disputar existência.
Quando o jogo passa para o campo estimulado, o cenário fica mais interessante - e mais revelador. Os números mostram um padrão consistente: a direita enfrenta um gargalo claro de competitividade. Entre os nomes testados, apenas Tarcísio de Freitas demonstra musculatura real em um eventual segundo turno contra Lula. E isso escancara uma tensão interna importante: o bolsonarismo segue sendo o polo emocional do campo, mas já não organiza sozinho uma sucessão natural.
Do outro lado, Lula não aparece surfando nenhuma onda. O país segue dividido, com avaliações do governo pressionadas por temas sensíveis como economia e segurança pública. Não há colapso, mas também não há conforto. É um equilíbrio instável - típico de eleições decididas no detalhe.
O fator rejeição: onde a eleição realmente começa!
Aqui entra um dos dados mais estratégicos dessa pesquisa: a rejeição.
Intenção de voto mostra quem começa na frente. Rejeição mostra até onde cada nome pode ir.
Altos índices de rejeição funcionam como teto eleitoral. Eles indicam dificuldade de expansão, principalmente em disputas de segundo turno. E este levantamento deixa claro que os principais polos da disputa carregam rejeições elevadas - o que reduz a margem de erro e aumenta o peso do eleitor pragmático.
É exatamente por isso que a eleição de 2026 não será decidida pelos extremos. Ela será definida por algo entre 3% e 4% do eleitorado: um grupo pequeno, volátil, pouco ideológico e altamente sensível à percepção de futuro, estabilidade e capacidade de entrega. Esse eleitor não milita, não veste camisa, não grita nas redes sociais e não compra discurso pronto. Ele decide tarde - e decide com base em risco.
Em cenários assim, quem tem rejeição alta precisa gastar energia apenas para não perder espaço. Quem tem rejeição mais controlada ganha liberdade estratégica para crescer. Pesquisa bem lida mostra isso com clareza.
Por isso, tratar essa primeira rodada como placar é um erro clássico. Pesquisa não é resultado final. É bússola. Ela aponta limites, mostra quem está inflado por recall, quem tem teto baixo e quem pode crescer se jogar certo.
O recado dessa largada é simples e poderoso: não existe favorito consolidado, não existe herdeiro natural e não existe narrativa vencedora pronta. Existe um país dividido, lideranças conhecidas, alternativas mal posicionadas e um enorme espaço para erro - ou para estratégia bem executada.
Quem entender isso agora larga na frente. Quem tratar pesquisa como torcida vai continuar correndo atrás do prejuízo.
Ao longo do ano, vamos analisar algumas pesquisas registradas a nível nacional e estadual e mostrar o que realmente os números apontam!
Curiosidade da semana
Em eleições altamente polarizadas, a rejeição costuma ser o indicador mais estável ao longo do tempo. Intenção de voto sobe e desce, rejeição muda devagar - e, quando muda, costuma sinalizar virada real de cenário.
André Bovenzi
Diretor da DNA Pesquisas
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