Laercio Beckhauser
As armas que se forjam na sombra da ignorância
elo comum que não reside em um ideário
As armas que se forjam na sombra da ignorânciaCRÔNICA JORNALÍSTICA BECKHAUSERIANA
— As armas que se forjam na sombra da ignorância
Três julgamentos.
Três vidas ceifadas.
E um elo comum que não reside em um ideário — mas, paradoxalmente, na ausência dele.
No banco dos réus, homens que agiram em nome de conceitos que não compreendiam. Condenaram o outro por palavras que jamais leram. Odiaram o diferente por ideias que sequer sabiam definir.
O juiz encara o acusado pelo assassinato de Anwar Sadat e pergunta o motivo.
A resposta vem seca, quase automática:
— “Porque ele era seglar.”
Quando instado a explicar o termo, o silêncio se impõe.
Não há definição.
Não há compreensão.
Há apenas repetição.
Em outro tribunal, o agressor de Naguib Mahfouz sustenta ter atacado um romance “contra a religião”.
Mas nunca leu uma página.
Nunca folheou o livro.
Nunca confrontou o conteúdo que dizia combater.
No terceiro caso, o homem que tirou a vida de Farag Fouda justifica-se pelo “faltante de fé” do intelectual.
Mas admite, sem constrangimento: não sabe ler nem escrever.
Nunca teve acesso às ideias que julgava condenar.
Não há convicção nesses atos.
Há eco.
Não há fé.
Há reprodução.
Não há pensamento.
Há obediência cega — nutrida no vazio do saber.
A violência, aqui, não nasce do excesso de ideias.
Ela brota exatamente onde elas não chegam.
O ódio não se expande pelo conhecimento.
Ele se alastra nos desertos da ignorância.
E talvez essa seja a mais incômoda das constatações: não estamos diante de fanáticos que pensam demais — mas de indivíduos que nunca foram ensinados a pensar.
A negligência educacional não produz apenas cidadãos desinformados.
Ela fabrica algo muito mais perigoso:
armas humanas.
Pessoas prontas para disparar sem entender o alvo.
Para condenar sem conhecer o fato.
Para agir sem qualquer mediação crítica entre estímulo e reação.
Esse é o custo invisível da ignorância.
E, como quase todo custo invisível, ele é pago por quem não tem qualquer relação com a causa que se alegava defender.
No fim, sobra uma constatação simples — e devastadora:
Não é o conhecimento que divide.
É a ignorância que destrói.
Frase-síntese:
“O eco do ódio só se espalha onde a luz do conhecimento não alcança.”




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