Willian Giesel
A Nike nunca entendeu o Brasil e eu posso te provar! Brasa é o C@R6L#0!!!
A nova camisa da seleção reacende um debate sobre identidade, decisões de marca e o quanto o Brasil ainda reage quando não se reconhece.
Brasa é o C@R6L#0!!!A Nike nunca entendeu o Brasil: o sintoma "brasa" e o peso da camisa
A camisa que queimou: quando o “brasa” virou faísca errada.
Tem coisa que não precisa nem de VAR. Bate o olho e já sabe: deu ruim.
A camisa da seleção brasileira lançada pela Nike com o tal do “BRASA” não é só um erro estético ou semântico. É um sintoma. E dos bons, daqueles que revelam algo muito maior por trás da superfície. Muita gente me pediu para comentar o caso, e a verdade nua e crua é que não se trata apenas de uma estampa. É sobre quem acha que pode definir, dentro de um escritório de vidro, o que é o Brasil.
Pode parecer exagero, mas eu posso te provar. A Nike sempre tentou importar cultura e empacotar comportamentos. Isso aparece em campanhas como o “Just Play” de 2014, que romantizou um Brasil improvisado para consumo global, no “Escrito nas Estrelas” de 2022, que falou com um país idealizado e ignorou o torcedor real, e nas coleções “brazucas” de streetwear, que transformam a cultura de rua em produto filtrado para gringo ver. A estratégia deles sempre foi tentar traduzir o Brasil com um sotaque americano que simplesmente não é nosso. Às vezes cola. Muitas vezes, graças a Deus, dá incrivelmente errado.
Falta entender quem somos antes de querer jogar goela abaixo uma cultura que não temos e nem queremos. O termo “Brasa” pode até existir em nichos específicos, em gírias de bolhas criativas e agências de São Paulo ou no Rio, mas não representa o país. Não conecta com a massa. Não arrepia. É o equivalente publicitário de colocar ketchup na feijoada e vender como inovação gastronômica.
Quem erra não é quem cria, é quem aprova.
Aqui entra uma verdade incômoda do nosso mercado de comunicação. É sempre mais fácil culpar a designer.
A corda invariavelmente arrebenta no lado mais fraco, enquanto quem aprovou, validou e colocou milhões de dólares na rua fica assistindo de camarote. Nenhuma designer acorda um dia e decide sozinha em um rompante de genialidade: “vou chamar a camisa da seleção de BRASA”. Isso vem de briefing. Vem de direção corporativa. Vem de estratégia ou da absoluta falta dela.
A tentativa da profissional de ir a público construir uma narrativa para defender o indefensável não foi por coragem criativa, foi por sobrevivência e obrigação profissional. Ela entregou o que a máquina corporativa pediu.
Quando o talento é real, o mercado reconhece
E já que o assunto virou a designer, vale fazer justiça com nome e sobrenome. Eu tive o prazer de liderar um time que tinha o Eduardo Schwarz como um dos principais designers, um profissional que sempre se destacou pela sensibilidade criativa e pela capacidade de transformar referência em identidade. Mais do que isso, é um grande amigo que a vida me deu. E o trabalho fala por si: ele é o responsável pelo design da camisa retrô da Seleção Brasileira que ganhou o mundo ao ser usada por Bad Bunny durante sua passagem pelo Brasil. Uma peça inspirada nas icônicas amarelinhas das Copas de 58, 62 e 70, resgatando exatamente aquilo que o brasileiro reconhece de longe: história, identidade e orgulho.
O mais interessante é que não se trata de um caso isolado. O trabalho do Eduardo é construído sobre releituras históricas com alto valor esportivo e também de moda, algo que dialoga diretamente com o legado de Pelé e com o peso simbólico da nossa camisa. E talvez seja por isso que esse exemplo seja tão importante dentro dessa discussão toda: quando a criação nasce do entendimento real da cultura, ela não precisa forçar conexão, ela simplesmente acontece.




O Brasil obrigado resolveu concordar
E aqui vem o melhor plot twist dessa história. Num país onde absolutamente tudo se divide, a Nike conseguiu um milagre: unir os brasileiros.
Flamenguista e vascaíno. Gremista e colorado. São-paulino e corintiano. Garantido e Caprichoso. Todo mundo olhando para a mesma campanha e dizendo em uníssono: “isso não é a gente”. Se colocar um país inteiro de acordo contra a sua campanha não é um case de impacto, eu não sei o que mais poderia ser.
O brasileiro ainda sente a Seleção
Tem uma coisa bonita e reveladora nisso tudo. Mesmo com o desinteresse recente, crise técnica, troca de geração, enxurrada de memes e críticas, o brasileiro ainda liga para a seleção.
A Copa do Mundo chega e muda o humor do país. Mesmo quem detesta futebol acaba pegando a pipoca e colando na TV. É um ritual coletivo não declarado. E talvez seja exatamente por isso que a reação foi tão passional. Mexer com a camisa da seleção não é só debater design gráfico. É mexer com memória, com identidade e com o orgulho que nos resta.
A aula de pragmatismo do Burger King
No meio do caos, sempre tem alguém que joga o jogo certo. O Burger King fez o que o marketing raiz manda: leu o contexto, entendeu o sentimento das ruas e respondeu na velocidade da luz.
Eles pegaram a influência negativa do “BRASA” e ressignificaram. Trouxeram para o território certo, conectando com a cultura real do fogo e do churrasco. Simples, inteligente e brutalmente eficiente. Enquanto uns tentam explicar o erro em notas de esclarecimento, outros transformam a gafe alheia em oportunidade de faturamento.
A síndrome do template e o peso da camisa 70
Engraçado é que a marca esportiva diz fazer um trabalho de pesquisa "especialmente para o Brasil". Mas basta olhar os lançamentos das outras seleções do mesmo fornecedor para notar que é tudo igual. É a síndrome do template global. Eles trocam as cores, aplicam um grafismo genérico e chamam de exclusividade.
Agora, faça um exercício de imaginação comigo. Enquanto todas as seleções rivais entram em campo com camisas "moderninhas", cheias de tecnologia de ponta e discursos globais vazios, o Brasil entra diferente.
Imagine a seleção entrando no gramado com um manto retrô. Uma réplica inspirada na nossa saudosa camisa do Tri dos anos 70. Gola polo verde clássica, escudo costurado à mão, sem invencionices. Cara de história. Cara de tradição. Cara de quem tem cinco estrelas.
Não é sobre viver de nostalgia. É sobre imposição de presença. É sobre entrar em campo com um uniforme que carrega uma aura tão pesada que vence o jogo antes mesmo da bola rolar. Meus amigos, qual seleção não iria tremer nas bases só de ver a canarinho dos anos 70 perfilada para o hino? Pouco importa se com ou sem Neymar. Só o peso do algodão daquela camisa já faria o adversário se preocupar.
No fim, a lição é simples
Marca não é sobre o que você quer dizer em um PowerPoint. É sobre o que as pessoas reconhecem na rua. E quando um país inteiro olha para o seu produto e diz que não se enxerga ali, não há storytelling de agência que salve.
A Nike tentou acender uma ideia. Mas esqueceu que o Brasil já é fogo. E fogo de verdade não precisa de tradução.
Biografia

Willian Giesel Silva é apaixonado por formatos inovadores e acorda todos os dias para desafiar o comum. Publicitário, designer gráfico e provocador de ideias, atua onde estratégia encontra estética e onde criatividade precisa resolver problemas reais. Gosta de liderar a mudança, mas respeita o ritual.
Observa Santa e Bela Catarina com carinho e otimismo e transforma esse olhar em textos sobre marketing, inteligência artificial e comportamento digital. Co-líder da IdeiAzul, acredita que criatividade é trabalho coletivo e que boas soluções nascem do encontro entre visão, método e ousadia.
Saiba mais em: ideiazul.com | Instagram: @williangiesel | Email: willian@ideiazul.com



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