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Willian Giesel

A agência Frankenstein: de quem é a ideia quando a máquina monta tudo?

A automação extrema cria campanhas mais rápidas, mas expõe um dilema silencioso sobre autoria, responsabilidade e valor no mercado criativo catarinense.

WILLIAN GIESEL SILVA
A agência Frankenstein: de quem é a ideia quando a máquina monta tudo? Autoria em tempos de IA

A agência Frankenstein: de quem é a ideia quando a máquina monta o monstro?

A automação extrema levanta um dilema ético e comercial para o mercado criativo catarinense entre o suor da indústria tradicional e o algoritmo das startups.


A máquina não sabe o que é o cheiro do maquinário operando às seis da manhã num galpão industrial. Ela nunca vai saber. E é exatamente aí que começa a conversa mais importante do mercado criativo em 2026.


Antes de qualquer coisa, um posicionamento claro: eu uso inteligência artificial todos os dias. Uso para pesquisar, para rascunhar, para acelerar o que seria lento, para abrir caminhos que eu depois escolho seguir ou não. Para mim, usar IA é tão natural quanto respirar. A pergunta que me faço nunca é "devo usar?". A pergunta é sempre "quando usar, como usar e até onde vai o meu papel nisso?"

Agência que não usa IA em 2026 não está preservando a criatividade humana. Está ficando para trás. Ponto.

Mas existe uma diferença enorme entre usar a ferramenta com inteligência e entregar a autoria junto com a execução. E é sobre essa diferença que quero falar.



Frankenstein não falhou pela tecnologia


Imagine o Dr. Frankenstein diante da mesa de operações. Cada pedaço do corpo veio de um lugar diferente: ossos de um cadáver, músculos de outro, cérebro de um terceiro. A criatura respira, mexe, funciona. Mas quando ela abre os olhos e pergunta "quem sou eu?", o doutor não tem resposta.

Frankenstein não falhou porque usou recursos externos para construir sua criatura. Falhou porque não assumiu a responsabilidade pelo que montou. Não tinha uma visão própria sobre o que estava criando, nem por quê.

Pense na rotina de uma agência hoje. O atendimento organiza o briefing com IA. O redator lapida o roteiro no ChatGPT. O diretor de arte gera a base visual no Midjourney. O analista automatiza os lances de mídia. No final, a campanha existe e foi rápida e barata. Mas quando o cliente pergunta "de onde veio essa ideia?", a resposta honesta seria: de nenhum lugar específico. De uma média estatística de tudo que já foi feito antes.

Isso não é criatividade acelerada por IA. Isso é terceirização de autoria com etapas intermediárias.




O choque no cenário catarinense


Santa Catarina torna esse dilema mais concreto porque vive num estado de contrastes que não se resolvem facilmente. Joinville é o microcosmo perfeito disso.

De um lado, a força das indústrias metalúrgicas e têxteis do Norte catarinense e do Vale do Itajaí: empresas que construíram impérios valorizando o chão de fábrica e o produto feito com esforço palpável. Do outro, o ecossistema das startups de Florianópolis e o polo tech de Joinville, onde a automação extrema é a regra básica de sobrevivência.

Quando o empresário tradicional senta para aprovar uma campanha, ele não compra só eficiência. Ele compra a certeza de que quem está do outro lado entende a dor do negócio dele. Ele fareja o superficial de longe.

Uma campanha gerada sem repertório real sobre aquela empresa, aquele setor, aquela cultura de negócio específica, não é só fraca. Ela comunica que você não fez o trabalho de entender. E nenhuma ferramenta resolve isso.


O que a máquina não substitui


A IA resolve a tela em branco. Ela acelera o rascunho. Ela pesquisa em segundos o que levaria horas. Negar isso seria desonesto da minha parte, e eu não nego.

O que ela não tem é repertório de rua. Não sabe o que faz o consumidor catarinense abrir a carteira. Não entende por que aquela empresa específica cresceu com aquele posicionamento durante quarenta anos. Não percebe a diferença entre o que o cliente fala que quer e o que ele realmente precisa ouvir.

Usar IA com inteligência é exatamente isso: saber a hora de ligar, saber a hora de desligar, e nunca confundir velocidade de execução com qualidade de pensamento. O exoesqueleto aumenta a força do corpo. Não substitui quem decide para onde andar.

O valor do profissional criativo em 2026 não está em gerar a peça mais bonita nem no tempo que levou para fazê-la. Está em ter o repertório estratégico para escolher o que dizer, para quem dizer, e por que aquilo vai importar para alguém.


A agência que usa IA com inteligência e clareza de propósito tem muito trabalho pela frente. A que entregou a autoria junto com a execução já está montando um monstro que não consegue explicar.

E você: quando usa IA, ainda consegue explicar o que foi sua ideia no final?

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Biografia


Willian Giesel Silva é apaixonado por formatos inovadores e acorda todos os dias para desafiar o comum. Publicitário, designer gráfico e provocador de ideias, atua onde estratégia encontra estética e onde criatividade precisa resolver problemas reais. Gosta de liderar a mudança, mas respeita o ritual.

Observa Santa e Bela Catarina com carinho e otimismo e transforma esse olhar em textos sobre marketing, inteligência artificial e comportamento digital. Co-líder da IdeiAzul, acredita que criatividade é trabalho coletivo e que boas soluções nascem do encontro entre visão, método e ousadia.

Saiba mais em: ideiazul.com | Instagram: @williangiesel | Email: willian@ideiazul.com



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