Léia Alberti
Mãe pode adoecer?
O peso de dar conta de tudo — e o direito de simplesmente não dar
maternidade Outro dia alguém me perguntou, quase em tom de espanto: “mas você está doente mesmo ou é só cansaço?”.
Eu ri. Porque, no fundo, a pergunta não era sobre diagnóstico. Era sobre permissão.
Existe uma expectativa silenciosa — e pesada — de que mãe não adoece. Ou, se adoece, que seja rápido, discreto, quase invisível. Uma febre que se resolve com um banho, uma tristeza que se esconde atrás de um sorriso, um esgotamento que se empurra com café.
Mãe pode tudo. Só não pode parar.
E aí o corpo cobra. Às vezes em forma de gripe que insiste. Às vezes em forma de ansiedade que aperta o peito sem pedir licença. Às vezes em silêncio — aquele silêncio perigoso de quem continua funcionando por fora, mas já está exausta por dentro.
A verdade é simples e desconfortável: mãe adoece, sim. Fisicamente, emocionalmente, mentalmente. E não há nada de errado nisso. Errado é fingir que não.
Porque quando a gente acredita que precisa ser forte o tempo todo, deixa de pedir ajuda. Deixa de descansar. Deixa de se cuidar. E cuidar de si não é luxo — é sobrevivência.
Não existe maternidade saudável sem uma mulher minimamente inteira por trás dela.
Talvez esteja na hora de trocar a pergunta. Em vez de “mãe pode adoecer?”, a gente deveria começar a perguntar: por que esperamos que ela não adoeça?
E, mais importante: quem está cuidando de quem cuida?
Entre o salto e o tênis, entre a pressa e o cansaço, entre dar conta de tudo e simplesmente não dar — existe uma mulher. E ela não é indestrutível.
Ainda bem.
Porque é justamente na fragilidade que mora a coragem de reconhecer limites, de pedir colo e, principalmente, de se permitir recomeçar.
Se mãe pode adoecer?
Pode. E talvez, em algum momento, precise adoecer para lembrar que também merece cuidado




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