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Augusto Cury e a política como terapia coletiva: entre a polarização e a busca pela verdade

por Elton Guerra, cientista politico

Redacao
Augusto Cury e a política como terapia coletiva: entre a polarização e a busca pela verdade Divulgacao

O cenário político brasileiro tem sido marcado, nos últimos anos, por uma crescente radicalização discursiva e emocional. A polarização deixou de ser apenas uma divergência ideológica saudável — inerente a qualquer democracia — para se transformar em um ambiente de hostilidade permanente, no qual o diálogo é substituído pelo confronto e a razão cede espaço à paixão exacerbada. É nesse contexto que surge um elemento novo e, no mínimo, provocador: a filiação e o anúncio de pré-candidatura à Presidência da República do psiquiatra, escritor e intelectual Augusto Cury. 

A entrada de Cury no debate político não pode ser analisada apenas sob a ótica tradicional da disputa eleitoral. Trata-se de um fenômeno que carrega uma dimensão simbólica relevante. Em um ambiente contaminado por narrativas extremadas, sua figura — associada à psiquiatria, à saúde emocional e à reflexão humanista — sugere uma tentativa de reconfiguração do próprio campo político. Mais do que um candidato, ele se apresenta como um possível agente de descompressão de tensões coletivas. 

A polarização política, quando atinge níveis patológicos, produz efeitos que ultrapassam o campo institucional. Ela afeta relações sociais, fragmenta comunidades e distorce a percepção da realidade. O adversário deixa de ser alguém com ideias divergentes e passa a ser visto como inimigo moral. Esse fenômeno pode ser compreendido, em termos metafóricos, como um “surto psicótico coletivo”, no qual a sociedade perde a capacidade de distinguir nuance, complexidade e, sobretudo, verdade. 

É justamente nesse ponto que a candidatura de Augusto Cury ganha contornos diferenciados. Ao longo de sua trajetória, ele construiu uma obra centrada na gestão das emoções, no pensamento crítico e na necessidade de desacelerar processos mentais impulsivos. Transposto para o campo político, esse repertório pode representar uma tentativa de “tratamento coletivo” — uma espécie de intervenção simbólica que busca restaurar a racionalidade no debate público. 

Esse movimento encontra eco em um dos textos fundadores da filosofia política ocidental: A República, de Platão. Na obra, o filósofo grego não apenas critica os sofistas — que manipulavam o discurso em busca de persuasão, independentemente do compromisso com a verdade —, mas também propõe um modelo alternativo: o governo dos sábios. 

Para Platão, a condução da pólis deveria estar nas mãos daqueles capazes de compreender a verdade para além das aparências — os chamados filósofos-governantes. Esses líderes deveriam agir guiados por princípios fundamentais como a ética, a justiça, a verdade e a razão. Em oposição aos sofistas, que operavam pela retórica e pela manipulação emocional, os sábios buscariam o conhecimento autêntico e o bem comum como norte da ação política. 

Ao observar o ambiente político contemporâneo, é difícil não perceber paralelos com a crítica platônica. A proliferação de desinformação, a manipulação emocional e a construção de narrativas simplificadoras remetem diretamente à lógica sofista. O debate público, muitas vezes, não busca esclarecer, mas convencer — ainda que à custa da distorção dos fatos. 

Nesse sentido, a possível candidatura de Augusto Cury pode ser interpretada como uma tentativa simbólica de aproximação desse ideal platônico. Não se trata de afirmar que ele encarne, de forma literal, o “filósofo-rei”, mas sua trajetória intelectual e seu campo de atuação apontam para uma valorização da racionalidade, do equilíbrio emocional e da reflexão ética — elementos centrais na proposta de Platão para um governo justo. 

Mais do que disputar votos, Cury pode contribuir para deslocar o foco do debate. Ao invés de reforçar a lógica binária — “nós contra eles” —, sua presença sugere uma política que reconhece a complexidade humana, valoriza a saúde mental coletiva e busca reconstruir pontes de diálogo. 

É cedo para avaliar a viabilidade eleitoral de sua candidatura. No entanto, do ponto de vista simbólico e discursivo, sua presença já representa uma ruptura com os padrões recentes. Em um ambiente saturado de conflitos e narrativas extremadas, a introdução de uma perspectiva voltada à psiquiatria, à racionalidade e à ética pode funcionar como um contraponto necessário. 

Se a política brasileira vive, de fato, um momento de exaustão coletiva, talvez seja pertinente considerar que sua reconstrução não depende apenas de novas propostas econômicas ou institucionais, mas também de uma reconfiguração psicológica do próprio debate público. Nesse contexto, a entrada de Augusto Cury pode não ser apenas mais uma candidatura — mas o início de uma discussão mais profunda sobre o estado mental da democracia brasileira. 

E, como já alertava Platão há mais de dois mil e quatrocentos anos, nenhuma sociedade consegue sustentar uma democracia saudável quando a verdade é substituída pela mera habilidade de persuadir. Talvez o desafio contemporâneo seja justamente esse: sair do domínio dos sofistas modernos e retomar o caminho da razão, da ética e da justiça. 




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