O que Flávio Bolsonaro tem para mostrar ao país?
por Elton Guerra, cientista politico
Divulgacao Saiu mais uma pesquisa DataFolha neste sábado, 11 de abril. Em um cenário de segundo turno, Flávio aparece com 46% contra 45% de Luiz Inácio Lula da Silva. Um empate técnico. Um retrato preocupante.
Uma pergunta inevitável: isso reflete o que Flávio tem a oferecer ao Brasil? A resposta curta é simples: não. Então, de onde vem essa força?
Alguns dirão que é puro antipetismo. Outros, que é a consolidação de um movimento chamado bolsonarismo. A realidade, como quase sempre, está na mistura dos dois. O antipetismo não apenas alimenta — ele recruta, engaja e fideliza dentro de um movimento que deixou de ser apenas político para ganhar contornos quase religiosos.
Para entender isso, é preciso voltar no tempo. Não a 2018 — mas antes. O Brasil atravessava uma crise política profunda. A desconfiança nas instituições crescia, a Operação Lava Jato dominava o noticiário, e a política virou espetáculo diário. A indignação virou combustível e quando mal direcionada, vira terreno fértil para salvadores da pátria.
Primeiro veio o juiz-herói, Sérgio Moro. Depois, emergindo do baixo clero, surgiu o personagem improvável: Jair Bolsonaro. O “antissistema” que sempre esteve dentro do sistema. O parlamentar irrelevante que virou mito. O militar indisciplinado que virou o referencial da caserna e um líder de massas.
A campanha foi simples — e eficaz: dividir o país entre o bem e o mal.
Sem meio-termo. Sem nuance. Sem complexidade. Com o uso massivo de redes sociais, grupos de WhatsApp e lideranças religiosas, criou-se um ecossistema onde opinião virou verdade e mentira virou estratégia. Bolsonaro foi vendido como messias — e muitos aceitaram a fé sem questionar o altar de um novo Bezerro de Ouro.
O bolsonarismo, então, fez algo ainda mais profundo: esvaziou partidos, demonizou movimentos sociais e passou a atacar sistematicamente instituições democráticas. Chegar ao poder foi o auge. Governar… foi outra história.
Diante da pandemia de COVID-19, o governo preferiu o negacionismo à responsabilidade. Enquanto o mundo corria atrás de vacinas, aqui se receitava cloroquina e discursos às Emas. O resultado foi trágico — e mensurável em vidas.
Quando veio a derrota, veio também a recusa em aceitá-la. As urnas foram novamente atacadas. A democracia, testada. E o movimento, mais uma vez, tensionado até o limite. Mas movimentos assim não desaparecem. Eles se transformam. E é aqui que entra o herdeiro.
Como em uma monarquia improvisada, Jair Bolsonaro aponta seu sucessor: o filho, o “01”, Flávio Bolsonaro. A pergunta, então, deixa de ser eleitoral e passa a ser existencial: o que exatamente ele entrega além do sobrenome?
Currículo administrativo? Questionável. Histórico político? Discreto.
Capacidade de liderança nacional? Ainda invisível. Há episódios curiosos — como negócios que desafiam a lógica comercial e patrimônios que despertam dúvidas públicas. Nada disso, até agora, esclarecido de forma convincente no debate nacional. E mesmo assim, 46%.
O dado mais importante talvez não seja sobre Flávio. Mas sobre o Brasil. Um país que, cansado de um projeto, parece disposto a apostar em qualquer outro — mesmo sem saber exatamente qual é.
No fim, a reflexão é simples: Você pode não gostar de Luiz Inácio Lula da Silva.
Mas isso não obriga ninguém a se apaixonar pela alternativa. Especialmente quando a alternativa ainda não mostrou a que veio.





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