Wagner Dias - PodMorar
Entre a BR e o horizonte
Barra Velha voltou a chamar a atenção
Barra Velha sempre foi uma dessas cidades que não pedem licença para entrar na memória da gente. Ela simplesmente fica. Talvez porque seja a primeira faixa de mar que aparece para quem desce a BR-101 vindo do norte. Talvez porque ali o litoral não grita, conversa. Ou talvez porque, para alguns de nós, ela seja cenário repetido de verões que se empilham como fotografias amareladas pelo tempo.
Foi assim que comecei a conversa no estúdio do PodMorar. Não dava para falar de Barra Velha de qualquer jeito. Cidade querida demais para isso. Então chamei alguém que conhece o lugar não só pelo mapa, mas pelo chão pisado, pelo mercado imobiliário vivido no dia a dia e pela convicção de quem decidiu apostar quando ainda havia desconfiança. Lucas Marangoni, CEO da VICI Incorporadora, chegou trazendo essa mistura rara de técnica, afeto e visão de futuro.
Enquanto ele falava, a sensação era de que Barra Velha passou muito tempo sentada num banco de praça, observando as cidades vizinhas correrem. Balneário Camboriú virou vitrine internacional, outras praias se modernizaram, e ela ali, com seu jeito simples, quase esquecida. Mas nunca vazia. Sempre escolhida. Pelas famílias do Paraná, de Joinville, de Jaraguá. Gente que buscava algo menos exibido e mais vivido. Bem-estar antes de status.
Lucas contou como essa percepção virou decisão. Filho de Joinville, engenheiro civil, criado entre obras, verões na praia e conversas de negócio com o pai, ele enxergou em Barra Velha o que poucos viam naquela época: espaço para crescer com qualidade. Não volume. Não pressa. Qualidade. Quando fundaram a VICI, em 2019, trouxeram para a cidade uma bandeira que ainda não tremulava por ali, a do alto padrão pensado para o litoral que valoriza o silêncio, a vista e o tempo.
E talvez seja isso que torne Barra Velha tão singular. São 23 quilômetros de orla, mas cada trecho conta uma história diferente. A Praia Central, com seus prédios antigos e memória urbana. O Tabuleiro, que virou a menina dos olhos do mercado, com empreendimentos novos, escassez de terrenos e aquela sensação de que, em breve, o mar vai se esconder atrás de fachadas elegantes. A Praia do Sol, pequena, exclusiva, seguida pelas Pedras Brancas e Pedras Negras desenhando a paisagem. A Praia do Grant, muito conhecida por ser "praia de ricos". E ainda temos Itajuba, Praia do Cerro que faz a ligação com a vizinha Piçarras e compartilha o desenvolvimento e a estrutura. Sem falar claro da Lagoa, que não é lagoa, na verdade é uma laguna, salgada, viva, cenário de kitesurf, veleiros e uma vista que mistura água calma e oceano aberto como se fosse um cartão-postal em movimento.
Enquanto conversávamos, ficava claro que o crescimento de Barra Velha não é só imobiliário. É cultural. É urbano. É estratégico. A criação da Costa Azul, ligando Barra Velha, Piçarras, Penha e Navegantes, colocou a cidade oficialmente no roteiro turístico. Mas, curiosamente, ela continua com alma de cidade pequena. Oficialmente são pouco mais de 50 mil habitantes. Na prática, parece menos. E isso, para quem vem de Joinville ou Curitiba, é um luxo silencioso.
Falamos também de investimento, claro. Porque o mercado existe e pulsa. Lucas foi direto: o momento é agora. Santa Catarina virou desejo nacional, e o litoral norte concentra algo raro, qualidade de vida com localização estratégica. Barra Velha está perto de tudo, mas longe do caos. Primeira praia para quem desce do Sudeste, parada natural para quem não quer enfrentar o trânsito até Balneário ou Florianópolis. Porta de entrada, literalmente.
Mas talvez o detalhe mais bonito da conversa tenha sido perceber que Barra Velha não quer ser outra cidade. Ela não tenta imitar ninguém. Seu futuro parece desenhado para quem busca longevidade, tranquilidade, natureza e uma rotina menos barulhenta. Uma cidade que foi deixada de lado por um tempo, é verdade, mas que agora retorna com maturidade, aprendendo com o que viu acontecer ao redor.
No fim, ficou aquela sensação boa de quem reencontra um velho amigo e percebe que ele mudou, mas continua essencialmente o mesmo. Barra Velha segue sendo a querida Barra Velha. Só que agora, além de memória afetiva, virou também promessa concreta de futuro.



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