Laercio Beckhauser
Entre Espelhos, Certezas e Silêncios
Entre Espelhos, Certezas e Silêncios
Entre Espelhos, Certezas e SilênciosEntre Espelhos, Certezas e Silêncios
Por Laércio Beckhauser
Crônica – O homem, o tempo e o espelho
Na praça central da cidade, o homem sentou-se no banco de sempre — esse móvel urbano que sabe mais da alma humana do que muitos tratados filosóficos.
Olhou o celular, depois o relógio e, por último, o céu. A ordem não foi aleatória; foi contemporânea.
Reclamou da pressa do mundo, enquanto digitava com urgência mensagens que não mudariam o destino da humanidade. Criticou a juventude barulhenta, esquecendo-se — com a natural indulgência dos maduros — de que também já fez algazarra apenas para provar que existia.
Um cachorro passou, cheirou o banco e seguiu feliz, sem projetos de longo prazo nem metas quinquenais. Um gato, à distância, observava tudo em silêncio, julgando sem necessidade de discursos — como fazem os sábios que não disputam audiência.
O homem sorriu.
Percebeu que o cotidiano é um espelho mal polido: só revela quem somos quando aceitamos olhar sem maquiagem moral. Levantou-se mais leve. Não porque tivesse resolvido a vida, mas porque a compreendeu por alguns segundos — e isso, convenhamos, já é muito.
Sátira – A República das Certezas Absolutas
Vivemos tempos em que prospera a República das Certezas Absolutas.
Nela, todos sabem tudo. Especialistas em tudo, ignorantes em quase nada — ao menos segundo suas próprias biografias digitais.
Há doutores em opinião, mestres em indignação instantânea e pós-graduados em comentários sem leitura. Quem duvida é suspeito. Quem reflete, perigoso. Pensar dá trabalho; repetir é confortável.
Certo dia, um velho ousou dizer que a dúvida é sinal de inteligência. Foi acusado de conspirar contra a verdade oficial do dia — essa entidade volátil que muda conforme a manchete, mas mantém intacta a arrogância de quem nunca revisa suas certezas.
Naquela república, o erro não é errar; é hesitar.
Fábula – A coruja, o papagaio e o pavão
No bosque da convivência humana, reuniram-se três figuras arquetípicas.
A Coruja falava pouco e observava muito.
O Papagaio repetia tudo o que ouvia.
O Pavão falava apenas de si.
Decidiram escolher quem era o mais sábio.
O Pavão abriu as penas e discursou.
O Papagaio ecoou discursos alheios.
A Coruja permaneceu em silêncio.
No fim, o bosque continuou funcionando graças à Coruja — enquanto o Papagaio confundia e o Pavão cansava.
A sabedoria, como se vê, não grita, não repete e não se exibe.
Parábola – Os três caminhantes
Três homens seguiram pela mesma estrada.
O primeiro caminhava olhando apenas para trás, prisioneiro do que foi.
O segundo corria olhando só para frente, tropeçando no presente.
O terceiro caminhava atento ao agora, aprendendo com o passado e respeitando o futuro.
Somente o terceiro chegou inteiro ao destino. Não porque fosse mais rápido, mas porque era mais lúcido. A pressa não o salvou, tampouco a nostalgia — foi o equilíbrio que o manteve de pé.
Conclusão – O valor do pouco que diz muito
Crônica, sátira, fábula e parábola são apenas lentes diferentes para observar a mesma paisagem: o comportamento humano.
Umas divertem, outras provocam, todas convidam à reflexão. Quando bem utilizadas, não apontam dedos; acendem consciências.
A literatura breve é, no fundo, um gesto de humildade: diz muito com pouco, ensina sem impor e critica sem destruir. Talvez por isso incomode tanto em tempos de certezas barulhentas e escuta rarefeita.
Frase-síntese (beckhauseriana)
“A sabedoria começa quando o ser humano troca a certeza ruidosa pela dúvida silenciosa — e aprende a ouvir antes de julgar.”
www.laerciobeckhauser.com
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