Israel Aparecido Gonçalves

Vai tomar a Groenlândia?

Israel Aparecido Gonçalves

Divulgacao
Vai tomar a Groenlândia? Divulgacao

A obsessão de Donald Trump, presidente dos Estados  Unidos, pela ilha dinamarquesa da Groenlândia é um fato    interessante  de se analisar. A primeira questão é repensar a velha ideia de que apenas ocontinente africano concentra guerras e ameaças. Como se as grandes democraciasou a Europa fossem bastiões de uma suposta civilidade — algo que não encontra  respaldo na história, já que foi a própria península europeia que desencadeou a  Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, resultando na morte de mais de 80  milhões de pessoas.

Uma segunda questão diz respeito ao fato de vermos  os  países  europeus, historicamente  colonizadores,  agora  lutando  para  não  serem  colonizados  por  um aliado  (ou ex-aliado, os EUA). Desde o século XV, os países  europeus construíram uma forte predominância sobre outros continentes e  tentaram impor, a partir de sua própria cultura, um modelo de sociedade que  hoje se encontra em colapso.

Do ponto de vista do Direito Internacional, Trump  simplesmente joga fora toda a história e os fundamentos desse direito. Ele  retoma uma lógica medieval, segundo a qual quem detém mais força pode dominar o  que  quiser. Essa ideologia, aplicada ao sistema econômico neoliberal, gera  grande instabilidade e estimula ações como o fortalecimento de  acordos  comerciais entre blocos, a exemplo das negociações entre o Mercosul e a União  Europeia, já que os países passam a buscar alianças para proteger suas economias.

Trump também cria um grave problema militar, pois  atacar a Groenlândia significaria atacar a OTAN (Organização do Tratado doAtlântico Norte), criada originalmente para proteger os países capitalistas da  influência comunista. Essa lógica de expansão da OTAN, inclusive, esteve no  centro do conflito entre Rússia e Ucrânia iniciado em 2022.

O grande impasse está na proporção da ação. A  Groenlândia poderia ser invadida, como foi a Venezuela em 3 de janeiro de 2026,  sem grandes consequências globais? Acredito que não. A Dinamarca não possuiestrutura  militar para  enfrentar os Estados Unidos, mas os dinamarqueses fazem  parte da OTAN, que é militarmente mais robusta, ainda que também não disponha  de condições logísticas para um enfrentamento direto com os EUA.

Diante disso, a alternativa para os europeus tende  a ser a pressão diplomática, o que pode empurrar países europeus e aliados  tradicionais dos Estados Unidos, como o Canadá, para a esfera de influência da  China e da Rússia. Quem poderia imaginar que a “salvação” da Europa poderá estar justamente em um antigo e temido país ex-comunista: a Rússia.

Israel Aparecido Gonçalves é cientista político e  escreve sobre Relações Internacionais, Conflitos e Direitos Humanos. Seu  livromais recente é “Sociologia e Direito – Volume 4”, lançado pela Editora  Periodicojs em 2026. Instagram @sou.profisrael



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