Elton Zattar Guerra

O day after no MDB

Política Real

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A política tem dessas coisas: às vezes não é o anúncio que causa o maior estrago, mas o dia seguinte. A informação de que o prefeito Adriano Silva foi o escolhido pelo governador Jorginho para compor como vice na eleição de 2026 caiu como uma verdadeira hecatombe política. Não foi apenas uma decisão estratégica — foi um gesto que reorganizou forças, rompeu expectativas e deixou marcas profundas. 

No MDB, o clima é de day after. E não daqueles amenos, mas do tipo que lembra o dia seguinte a um tsunami: destroços espalhados, lideranças desnorteadas, discursos interrompidos e um silêncio pesado pairando sobre o partido. Alguns ainda tontos, tentando entender de onde veio a pancada. Outros sorridentes, amparados no velho argumento de que “não se mexe em time que está ganhando”. 

O problema é que política não é só cálculo eleitoral. É também memória, lealdade e narrativa. E, nesse terreno, há uma regra não escrita, mas sempre válida: ninguém perdoa uma traição política por completo. O traído pode até perder o jogo, mas ganha um papel poderoso — o de vítima. E esse papel, na política, costuma render dividendos simbólicos e eleitorais. 

O MDB, até aqui parceiro do projeto, vê-se agora diante de uma ruptura de confiança. Porque alianças se desfazem, é verdade. Mas gestos ficam. E escolhas sinalizam rumos. 

Quais os próximos passos 

Passado o choque inicial, vem a parte mais difícil: decidir o que fazer com os escombros. Na próxima segunda-feira, uma reunião do diretório deve colocar todas as cartas sobre a mesa. Os caminhos existem. Nenhum é simples. Todos cobram preço. 

1 – Ficar como está. 
Aceitar, perdoar, manter os cargos e focar na eleição de deputados. É a escolha do pragmatismo. Mas fica a pergunta incômoda: a que custo? Que imagem estará estampada na camisa do “Manda Brasa”? A de um partido que engoliu a seco a troca pública para não perder espaço? O eleitor até tolera acordos, mas cobra coerência. 

2 – Seguir no governo até março. 
Garantir mais alguns meses, dois salários, e depois decidir. Um meio-termo que, na prática, não resolve nada. Trocado uma vez, troca-se de novo sem culpa. Ao sair, o MDB ficará como? Independente? Órfão? Liberando filiados num salve-se quem puder? Adiar decisões costuma apenas prolongar o desgaste. 

3 – Romper e construir alternativa própria. 
É o caminho mais duro — e, paradoxalmente, o mais político. Exige mobilização, discurso claro e militância aquecida. Exige ir ao interior, reorganizar bases e lembrar que o MDB tem história, capilaridade e voto. Unido, o partido larga facilmente com algo em torno de 10% do eleitorado, sem grande esforço. Com trabalho, pode ir além. 

Se essa for a escolha, nada impede que, lá por junho ou julho, uma conversa mais definitiva reorganize forças no estado. Um novo arranjo, um novo grupo… quem sabe até uma Tríplice Aliança. Sim, já vimos esse filme antes. E a política adora reprises — algumas com finais diferentes. 

 O que dizem os caciques? 

Procurados membros históricos do MDB, lideranças sem mandato, parlamentares e quadros influentes, a resposta majoritária foi o silêncio. Todos preferem aguardar a reunião de segunda-feira antes de qualquer manifestação pública. Oficialmente, cautela. Nos bastidores, cálculo. 

Mas nos corredores do partido, a informação corre com força: o deputado federal Carlos Chiodini deve pedir exoneração da secretaria e retornar às funções em Brasília. Se confirmada, a decisão será tudo, menos burocrática. É um gesto político, simbólico e eloquente. Voltar à Câmara é reassumir autonomia, recuperar trincheira e sinalizar que o MDB pode estar se preparando para um novo posicionamento. 

Chiodini sempre foi tratado como peça-chave na composição com o governo. Sua saída do Executivo reforça a leitura de que o partido começa a recolher fichas e se proteger de um tabuleiro que mudou sem aviso. 

  

O MDB chega à próxima semana diante de algo maior que cargos ou calendários eleitorais. Chega diante de uma escolha identitária. Quer ser coadjuvante confortável, aliado resignado ou protagonista de um novo ciclo? 

Aceitar garante sobrevivência. Esperar preserva conforto temporário. Romper cobra preço alto — mas devolve discurso, musculatura e respeito. 

Na política real, quem não reage vira cenário. 
Quem não escolhe, acaba escolhido. 

E é por isso que seguimos atentos. 
Porque quando um partido histórico hesita, o estado inteiro sente. 

Política Real. 

 



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