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Elton Zattar Guerra

Política Real

Bastidores da Politica catarinense

Elton Zattar Guerra — Cientista Político e Mestrando em Comunicação em Política Avançada
Política Real Os bastidores da Política em Santa Catarina

Quinta-feira de renúncias

A quinta-feira foi daquelas em que a política não apenas se movimenta — ela sinaliza. E Santa Catarina assistiu a dois movimentos distintos, mas conectados por um mesmo pano de fundo: 2026 já começou.

No Oeste, João Rodrigues escolheu um palco simbólico. Aproveitou o clima de arquibancada e identidade coletiva em um jogo da Chapecoense para oficializar sua renúncia. Não foi apenas um ato administrativo — foi político, calculado e carregado de narrativa. Cercado por apoiadores e correligionários, fez questão de revisitar obras, feitos e, sobretudo, reforçar o espírito resiliente que molda o imaginário chapecoense. Já havia dado sinais na terça-feira, ao articular um movimento de unidade partidária. A renúncia, portanto, não surpreende — apenas confirma o roteiro.

No Norte, o tom foi outro, mas o objetivo parece semelhante. Em Joinville, Adriano Silva reuniu o chamado “PIB joinvilense” para um ato de transmissão de cargo à vice, Rejane Gambin. Um evento prestigiado, com a presença do governador Jorginho Mello e da vice Marilisa Boehm, além de lideranças políticas e empresariais. Mais do que formalidade, o gesto teve tom de despedida temporária — e de largada. Adriano fez questão de destacar obras, alinhar o discurso à parceria com o governo do Estado e deixou claro o próximo passo: “estou pronto para correr o estado e ajudar o governador na corrida eleitoral”.

Em comum, os dois movimentos têm a antecipação. Saídas estratégicas, discursos alinhados e construção de palanque. Não se trata apenas de deixar cargos — trata-se de ocupar espaços.

A política catarinense, como de costume, não espera calendário. Ela se antecipa, testa cenários e posiciona peças. E nesta quinta-feira, ficou evidente: o jogo já está em andamento.

Joinville ganha presente na véspera da Páscoa

Na véspera da Páscoa, Joinville recebeu um gesto que mistura simbolismo político e entrega concreta. Em seu último ato como prefeito, Adriano Silva anunciou o início do processo de estadualização do Hospital Municipal São José — pauta relevante, aguardada e estratégica para a saúde pública local.

Mas o que efetivamente saiu do papel naquele momento foi a assinatura da reforma e restauração do Teatro Nicodemos.

E não é pouca coisa. O prédio, carregado de memória e identidade, já foi um dos grandes cartões-postais da cidade, tendo a tradicional Praça da Bandeira como seu “jardim”. Um espaço que por décadas ajudou a contar a história cultural de Joinville e que agora se projeta para um novo ciclo.

Com palco de aproximadamente 340 metros e capacidade para 1.200 pessoas, o teatro renasce como promessa de protagonismo cultural. Mais do que uma obra física, é um investimento em identidade, turismo e economia criativa — ativos cada vez mais valorizados nas cidades que pensam o futuro.

No campo político, Adriano encerra sua passagem pelo cargo deixando uma marca dupla: a sinalização de um avanço estrutural na saúde e a entrega concreta na cultura. Entre o anúncio e a assinatura, há uma diferença importante — e o eleitor costuma saber distinguir.

Ainda assim, o timing não poderia ser mais simbólico. Em clima de renovação, Joinville ganha um presente que dialoga com o passado, mas olha diretamente para o futuro.

Brandel Jr. no Republicanos e a conta que fica no PL

A dança partidária segue intensa — e estratégica. Em Joinville, o vereador de segundo mandato Brandel Junior deixou o Partido Liberal e oficializou sua filiação ao Republicanos, mirando a disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa.

O movimento não é isolado. Pelo Republicanos, ele se soma a Eduardo Cescaneto, que também desponta como pré-candidato. O partido, portanto, começa a desenhar um campo competitivo na região Norte, apostando em nomes com base eleitoral consolidada.

Mas, como toda troca partidária, a conta não fecha apenas na nova sigla — ela abre um flanco na antiga. A saída de Brandel do PL levanta uma questão clássica da política brasileira: a fidelidade partidária e o direito ao mandato.

E aí fica a pergunta que já circula nos bastidores: o primeiro suplente do PL vai judicializar e reivindicar a cadeira ou vai optar pelo silêncio estratégico?

Se for para a Justiça Eleitoral, o debate será técnico, mas com forte impacto político. Se não for, o recado também será claro — há mais acordos do que conflitos à vista.

Na política, às vezes, o movimento mais importante não é quem sai… mas quem decide não reagir.

Nem tudo são flores

Nem mesmo uma noite desenhada para celebração escapa da realidade política. Em Joinville, o evento que marcava o encerramento de ciclo de Adriano Silva acabou atravessado por manifestações de moradores que escolheram o momento para protestar.

O recado foi direto: Adriano está longe de ser unanimidade.

Em meio a aplausos, discursos e anúncios, as vozes dissonantes lembraram que há uma parcela da população que não se vê representada pelo modelo de gestão adotado. A política defendida pelo Partido Novo, com foco em eficiência, redução do tamanho do Estado e responsabilidade fiscal, encontra respaldo em parte do eleitorado — mas também resistência, especialmente entre aqueles que dependem mais diretamente dos serviços públicos e da presença estatal.

O episódio expõe uma tensão clássica: gestão técnica versus sensibilidade social. Enquanto uma parcela valoriza os indicadores, outra cobra presença, assistência e respostas mais imediatas no dia a dia.

No fim, a política é isso — um campo onde aplausos e vaias convivem no mesmo espaço. E, em Joinville, a noite deixou claro que, por trás dos holofotes, o debate segue vivo e longe de consenso.

Litoral inflacionado de pré-candidaturas

A região da AMFRI começa a desenhar um cenário clássico de pulverização política para 2026. A lista de pré-candidatos cresce — e com ela, a dúvida: vai faltar voto ou sobrar cadeira?

Em Balneário Piçarras, a primeira-dama Andressa Pera entra no jogo pelo MDB. Em Navegantes, o ex-prefeito Liba Fronza surge como aposta do PSD.

Já em Itajaí, o tabuleiro fica ainda mais competitivo, com Osmar Teixeira pelo Podemos e Anna Carolina representando o Republicanos.

Em Balneário Camboriú, o atual deputado Carlos Humberto, do Partido Liberal, busca a reeleição, enquanto em Camboriú o ex-vice-prefeito e atual deputado estadual Junior Cardozo também se manter vivo no jogo.

O cenário é de clara fragmentação. Muitos nomes, bases eleitorais próximas e um eleitorado que não cresce na mesma proporção das candidaturas. A matemática é simples — e cruel: quanto mais dividido o voto, maior o risco de bons nomes ficarem pelo caminho.

Por outro lado, há quem veja oportunidade. Em sistemas proporcionais, como o brasileiro, não vence apenas quem tem mais votos — vence quem sabe montar grupo, chapa e estratégia. E, nesse quesito, os partidos terão papel decisivo.

A pergunta que fica no ar não é apenas se vai faltar voto. É quem, no meio dessa multidão de pré-candidatos, vai conseguir transformar intenção em mandato.

Porque, no fim, eleição não é sobre quantidade de nomes — é sobre densidade eleitoral.

Rodrigo Coelho, o elo da paz no MDB?

Nos bastidores da maior cidade do estado, um nome começa a ganhar densidade política. O ex-vice-prefeito de Joinville e ex-deputado federal Rodrigo Coelho surge como possível peça-chave na montagem de uma chapa majoritária competitiva ao governo do Estado.

A hipótese: ser o vice de João Rodrigues.

Mais do que composição eleitoral, o movimento tem leitura interna. Dentro do MDB, especialmente em Joinville, o recado foi dado de forma clara na última segunda-feira: sem um nome da cidade na majoritária, a unidade partidária fica comprometida. Com ele, a conversa muda de tom — e pode até pacificar arestas históricas.

Rodrigo Coelho, nesse contexto, passa a ser visto como o possível “elo da paz”. Um nome que dialoga com diferentes correntes, tem lastro eleitoral e representa o peso político do Norte do estado, frequentemente cobrado por protagonismo nas decisões estaduais.

O sinal vindo de Joinville parece ter ecoado no Oeste. E, se a política é feita de recados — alguns públicos, outros nem tanto — esse foi recebido.

Mas como toda construção antecipada, nada está definido. A costura ainda está em andamento, interesses seguem sendo alinhados e o tabuleiro permanece aberto.

Porque, como diz o velho jargão da política: até as convenções, ainda vai passar muita água por baixo dessa ponte.



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