Alexandre Santos

Artemis II inspira. Mas o desafio não é chegar a Lua, é chegar à sala de aula

Alexandre André dos Santos tem mais de 20 anos de experiência como gestor público, com atuação em políticas públicas, inovação , sustentabilidade e educação.

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Artemis II inspira. Mas o desafio não é chegar a Lua, é chegar à sala de aula Alexandre André dos Santos

Escrever sobre o espaço costuma nos levar direto ao encantamento. A imagem da tripulação da Artemis II deixando a Terra, a ideia de voltar à Lua, o silêncio que envolve a órbita distante. Mas acredito que o mais interessante não esteja exatamente ali, no momento do lançamento. Talvez esteja no que esse tipo de missão organiza aqui embaixo.

Quando a Artemis II apontou o caminho de volta à Lua, ela apontou também para outra coisa: o encontro entre ciência, inovação e educação. Porque não existe missão desse porte sem base científica consistente, sem ambiente de inovação funcionando e, principalmente, sem gente formada para sustentar esse ciclo ao longo do tempo.

O que aparece é o foguete, mas o que o sustenta é um complexo sistema, que não nasce pronto. Ele vai sendo construído em camadas, muitas vezes fora do campo de visão.

Talvez por isso seja inevitável olhar para esse movimento e lembrar de experiências que, estão ocorrendo em outra escala, e que seguem a mesma lógica. Em 2019, como Presidente da FAP-DF[1], incentivei uma parceria entre a Universidade de Brasília, a FAP-DF e a Agência Espacial Brasileira para o desenvolvimento do Projeto Alfa Crux, que carregava essa ambição. Não era apenas sobre colocar um satélite em órbita. Era sobre estruturar um ambiente onde ciência, inovação e formação pudessem se encontrar.

Na prática, isso significou mais do que desenvolver tecnologia. Era pensar aplicação, formar equipes, testar soluções, conectar o projeto com problemas reais, como comunicação em áreas remotas, conectividade em regiões onde a infraestrutura não chega e, ao mesmo tempo, aproximar isso da educação básica. Porque, sem esse elo, o ciclo não se sustenta.

E, em algum momento, o que era projeto virou realidade. O nanossatélite desenvolvido na Universidade de Brasília entrou em órbita em 2022. Ele carregava algo maior: a prova de que é possível construir capacidade, passo a passo, dentro do país.

Em 2023, o lançamento do nanossatélite VCUB1[2], desenvolvido pela indústria brasileira com participação do Instituto SENAI de Inovação de Santa Catarina, também emitiu o mesmo sinal: representou a capacidade de projetar, integrar e testar sistemas espaciais completos no Brasil.

Mais do que um satélite, os dois exemplos validaram arquitetura, software, operação. Era o Brasil mostrando que conseguia dominar etapas que, até pouco tempo atrás, estavam fora do seu alcance.

Quando se observa esse conjunto — universidade, governo, indústria, diferentes estados — operando em convergência, fica evidente que o país não está à margem desse movimento global. Está nele, ainda que em construção. A experiência de quem acompanhou iniciativas como essas por dentro observa que inovação não nasce no momento do lançamento. Ela começa antes, no financiamento que viabiliza, na articulação que conecta, na persistência que sustenta o que ainda não deu resultado, mas pode dar.

Por isso a minha preocupação, desde o início, em conectar a iniciativa do projeto com a educação básica. Não apenas como desdobramento, mas como parte do próprio sentido do que estava sendo construído. Encantar crianças e jovens, mostrar que é possível, abrir um horizonte onde a ciência não aparece como algo distante, mas como caminho. Porque, no fim, não se trata só de desenvolver tecnologia — trata-se de formar quem vai sustentá-la.

Talvez seja justamente aí que o desafio começa de verdade. Chegar à órbita exige ciência, engenharia, coordenação. Transformar isso em aprendizado na escola exige algo ainda mais difícil de sustentar: continuidade, tradução e vínculo com a realidade dos estudantes. Porque, no fim, não é o foguete que forma a próxima geração — é o que fazemos com o conhecimento que ele carrega quando encontra a sala de aula.

Isso pede decisão. Pedagógica e política. Levar projetos reais para dentro da escola, aproximar cientistas e professores, transformar dados em experiência, fazer da curiosidade um método e não um acaso. Não como ação pontual, mas como parte do sistema.

Se essa travessia acontecer, a órbita deixa de ser um destino distante e passa a ser horizonte possível. Caso contrário, continuaremos assistindo de longe a conquistas que poderiam, também, se desenvolver por aqui.

Notas: 

https://fap.df.gov.br/w/alfa-crux

https://noticias.unb.br/117-pesquisa/5614-nanossatelite-desenvolvido-na-unb-esta-em-orbita

https://noticias.unb.br/117-pesquisa/3094-para-lancar-satelite-unb-fecha-parceria-com-fap-df-e-agencia-espacial-brasileira

https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/inovacao-e-tecnologia/primeiro-nanossatelite-da-industria-brasileira-e-lancado-em-orbita-nos-eua/

[1] https://noticias.unb.br/117-pesquisa/3094-para-lancar-satelite-unb-fecha-parceria-com-fap-df-e-agencia-espacial-brasileira 

[2] https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/inovacao-e-tecnologia/primeiro-nanossatelite-da-industria-brasileira-e-lancado-em-orbita-nos-eua/



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