De Província a Estado: as origens do poder político catarinense
As raízes do poder em terras catarinenses
Poucos sabem que Lauro Müller, o primeiro governador republicano de Santa Catarina, foi também um dos principais engenheiros políticos e diplomáticos do país Muito antes de Santa Catarina se tornar o Estado que conhecemos hoje — industrial, pujante e descentralizado — o território era palco de disputas estratégicas, políticas e simbólicas. Localizada entre São Paulo e Rio Grande do Sul, a região sempre teve uma posição de equilíbrio e rivalidade, tanto geográfica quanto política.
A história política catarinense começa oficialmente em 1738, quando foi criada a Capitania de Santa Catarina, subordinada ao Rio de Janeiro. A instalação de um governo próprio na Ilha significou mais que uma divisão administrativa: foi o início de uma identidade política, que combinava autonomia local, espírito militar e forte presença da Igreja Católica.
Ilha do Desterro: o centro do poder
Durante o período colonial e imperial, a Ilha do Desterro (atual Florianópolis) foi o coração do poder. Ali se instalavam os governadores, as autoridades e as decisões sobre o restante do território, ainda isolado e de difícil acesso. O interior — marcado por colônias de imigrantes e comunidades açorianas — via o poder político como algo distante, vindo “do litoral”.
Foi também ali que surgiram as primeiras disputas políticas e econômicas locais, envolvendo comerciantes, militares e grandes proprietários de terras. Esse embrião de elite política formaria as bases de grupos de influência que se reproduziriam ao longo dos séculos seguintes.
Entre o Império e a República: a província se afirma
Com a Independência do Brasil, em 1822, Santa Catarina tornou-se Província do Império, passando a eleger deputados provinciais e representantes à Assembleia Nacional. As discussões sobre autonomia, impostos e infraestrutura começaram a moldar uma cultura política própria — marcada pelo equilíbrio e moderação, mas também por intensas disputas regionais.
Durante o Período Imperial, dois grupos principais se destacaram:
Os conservadores, ligados à elite agrária e aos militares;
Os liberais, apoiados por comerciantes e profissionais urbanos.
Essas diferenças ideológicas se refletiam até nos municípios, onde câmaras e intendências se tornavam microcenários de embates políticos.
Revoltas e rupturas
Santa Catarina também foi palco de conflitos que marcaram o Brasil.
Entre eles, a Revolta dos Farrapos (1835–1845), que afetou o Sul do Estado, e mais tarde, a Guerra do Contestado (1912–1916), que deixaria cicatrizes profundas na política regional.
Mas mesmo antes dessas guerras, as tensões locais entre litoral e interior, civil e militar, conservador e liberal já desenhavam a complexa rede política catarinense.
1889: a República e um novo começo A Proclamação da República, em 1889, marcou a transição da Província à condição de Estado de Santa Catarina. O poder local passou por reorganização: câmaras se tornaram prefeituras, chefes políticos ganharam força, e as primeiras eleições republicanas começaram a moldar o novo mapa do poder.
Os antigos coronéis e famílias tradicionais assumiram protagonismo, dando início à era das oligarquias regionais, que dominaria o cenário político catarinense nas décadas seguintes — tema da próxima reportagem da série.
Curiosidade histórica
Poucos sabem que o primeiro governador republicano de Santa Catarina, Lauro Müller, foi também um dos principais engenheiros políticos e diplomáticos do país. Ainda jovem, representou o espírito modernizador que começava a despontar no final do século XIX.
Na próxima edição
“As Oligarquias e o Nascimento das Famílias do Poder Catarinense (1890–1930)”
Uma viagem pelo período em que o interior se levantou e o poder começou a se descentralizar.




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