Wagner Dias - PodMorar
O projeto começa na pessoa:
Uma crônica sobre morar e pertencer
É curioso como alguns lugares parecem puxar a conversa para o lado da alma, como se dissessem em silêncio: aqui se fala de vida, não só de tijolo.
Foi nesse clima que conheci a história de Carolina Freitas Giacomini. No crachá, diretora de incorporação. No tom, no gesto, no brilho dos olhos, percebe-se algo mais antigo: a estagiária que construiu seu caminho na engenharia com a persistência.
A crônica daquele encontro começa muito antes das perguntas. Começa quando a Carol me contou que chegou à antiga Invescorp ainda dividindo dias entre o serviço público, o estágio e a faculdade. Era quase uma coreografia de sobrevivência. Ela sorri ao lembrar. O riso dela não carrega vaidade; carrega o tipo de orgulho que nasce quando alguém reconhece a própria estrada e percebe que cada pedrinha, mesmo as tortas, tinham função.
Talvez por isso hoje ela fale tanto do cliente, das pessoas e de suas vocações. Carol não projeta prédios. Ela projeta lares como quem escuta uma música que ainda não existe, mas já tem ritmo. Explica que cada empreendimento nasce da compreensão profunda de quem vai viver ali. E ao descrever, por exemplo, o Morada de Gaia, é quase possível ouvir o passarinho que ela diz ter inspirado o conceito. “Morar onde Gaia resolveu morar”.
Há algo poético nesse método que começa lá no momento em que o terreno ainda é só um pedaço de terra esperando nome. Carol fala dessa fase como quem observa a personalidade de alguém. O terreno do Morada tinha morro, verde, relevo. Tinha história. Tinha até uma ex-proprietária temerosa de que tudo fosse arrancado. E a equipe entendeu que preservar não era só opção. Era missão. Dali veio o nome, veio a narrativa, veio o conceito.
Enquanto conversávamos, fiquei pensando no contraste entre aquela visão sensível e a realidade dura do mercado imobiliário. Perguntei sobre isso, sobre a tal sensibilidade feminina no setor. Ela respondeu com elegância: não se trata de gênero, trata-se de técnica, de equipe, de processos. Apesar disso, admitiu que são muitas as mulheres que procuram sua trajetória como inspiração. E ela acolhe todas, com alegria de quem sabe que representatividade abre portas silenciosas.
Mas existe, sim, uma camada humana que ela traz para os projetos. Não romântica, mas vivida. Depois que se tornou mãe, diz que começou a enxergar o chamado espaço kids de outro jeito, os fluxos de casa, a rotina de quem desce com uma criança no colo. Não é agenda rosa, é a experiência empírica transformada em arquitetura.
E aí, no desfecho, voltamos para o começo: viver bem é planejar bem. Nas palavras dela, planejar vai da torneira ao conceito, do urbanismo ao bosque, do visitante que olha o empreendimento sem ver grade ao morador que encontra ali um horizonte de vida possível. E viver bem, então, vira quase sinônimo de ser bem pensado.
Quando deixei o Morada de Gaia, tive a sensação de que não entrevistei uma diretora. Entrevistei alguém que constrói pontes invisíveis entre cidade e pessoas. Alguém que pega terrenos e lhes descobre vocações. Alguém que enxerga moradas onde outros veriam apenas concreto.
E talvez seja isso que faz cada empreendimento da Halsten carregar aquela impressão curiosa: não é só prédio. É quase como se tivesse uma pulsação própria, discreta, mas presente.



COMENTÁRIOS