Elton Zattar Guerra

Política Real: Silêncios que articulam, alianças que rangem

Enquanto pré-candidatos medem palavras, partidos testam fidelidades e o centro tenta se reorganizar, Santa Catarina entra na fase em que o que não é dito pesa tanto quanto o que é anunciado.

Elton Zattar Guerra
Política Real:  Silêncios que articulam, alianças que rangem Política Real

PolíticaReal:

Silêncios que articulam, alianças que rangem

Enquanto pré-candidatos medem palavras, partidos testam fidelidades e o centro tenta se reorganizar, Santa Catarina entra na fase em que o que não é dito pesa tanto quanto o que é anunciado.  

 

João Rodrigues, o silêncio que fala  

João Rodrigues anda quieto. Quieto demais para quem conhece o ritmo do caboclo de Nonoaí. Nos últimos dias, porém, o silêncio veio acompanhado de gestos: intensificação na entrega de obras em Chapecó, conversas discretas com pares e uma aproximação calculada com o PSD nacional, seguindo os passos de quem sabe que política também se faz pelo alinhamento do tempo certo.  

Há um ditado antigo que segue atual na política catarinense: passarinho na muda não pia. João parece levar isso a sério. Observa, mede o ambiente, evita declarações vazias e prefere deixar que os movimentos falem por si. Enquanto muitos antecipam discursos, ele antecipa presença.  

Quando questionado sobre o futuro, a resposta é sempre a mesma — e nunca aleatória: Santa Catarina merece um debate sério. Não sobre quem diz que faz, mas sobre quem, de fato, faz. A frase carrega menos improviso do que aparenta. É recado para o eleitor atento e aviso aos concorrentes que confundem narrativa com entrega.  

No tabuleiro catarinense, João Rodrigues joga a partida clássica: não blefa, não corre e não se expõe antes da hora. Quem está atento percebe que o silêncio, neste caso, não é ausência — é método.



Ratinho Jr. entra no jogo — e puxa o debate para o centro  

O governador do Paraná, Ratinho Jr., decidiu comunicar aos próximos aquilo que, nos bastidores, já deixava de ser segredo: está no páreo para disputar a Presidência da República. A mensagem foi levada diretamente ao presidente do PSD, Gilberto Kassab, num gesto que combina ambição, cálculo e leitura de cenário.  

Na fala, o argumento é claro e politicamente correto no sentido mais estratégico da palavra: o Brasil precisa ser governado pelo centro, não pelos extremos. Trata-se menos de um slogan e mais de uma tentativa de ocupar um espaço que hoje existe — e cresce — entre a fadiga do confronto permanente e o cansaço do eleitor com a radicalização estéril.  

O desafio, no entanto, é do tamanho do país. Tirar alas inteiras dos extremos e convencê-las a caminhar pelo centro exige mais do que retórica moderada. Exige musculatura política, alianças consistentes e, sobretudo, capacidade de dialogar sem parecer hesitante — um equilíbrio raro na política brasileira contemporânea.  

Ainda assim, o movimento fortalece o jogo democrático. O PSD passa a ter um nome viável na mesa nacional, e a democracia ganha mais um player competitivo, fora do eixo da polarização automática. Se vai prosperar, o tempo dirá. Mas, ao entrar em campo, Ratinho Jr. deixa claro que o centro não quer mais apenas comentar o jogo — quer apitar.  

Gelson Merísio e o possível protagonismo da centro-esquerda catarinense  

Depois de Paulo Bauer e Dário Berger, agora é o nome de Gelson Merísio que volta a circular com mais densidade nos bastidores como possível condutor de uma chapa de centro-esquerda em Santa Catarina. Não é lembrança aleatória, tampouco nostalgia política: é cálculo.  

Merísio reúne atributos raros no atual ambiente político catarinense. Tem influência estadual e trânsito nacional, carrega prestígio no meio empresarial e, ao mesmo tempo, não é identificado com a esquerda tradicional — fator que amplia seu campo de diálogo num eleitorado historicamente avesso a rótulos ideológicos rígidos.  

Sua capilaridade estadual também pesa. Foi candidato ao governo em 2018, conhece o território, os atores e as engrenagens do poder local. Não parte do zero nem depende de improvisações narrativas. Em tempos de política performática, isso conta — e muito.  

Se avançar, sua presença pode oxigenar o debate eleitoral em Santa Catarina. Mais do que uma candidatura, representa a possibilidade de ampliar o cardápio democrático, oferecendo ao eleitor uma alternativa fora da polarização automática. Para o Estado e para a democracia, ter mais um nome competitivo na corrida não é ruído — é sinal de maturidade institucional.



Jorginho, Adriano e a conta que a direita catarinense ainda não fechou  

Avançam as conversas para que o prefeito da maior cidade de Santa Catarina, Adriano Silva (NOVO), seja o vice na chapa de reeleição do governador Jorginho Mello. O movimento não ocorre no vazio. Ele acompanha, com fidelidade, os passos do PL nacional, que tenta emplacar Flávio Bolsonaro na cabeça de chapa presidencial, tendo Romeu Zema (NOVO) como vice.  

Em Santa Catarina, o desenho ensaiado segue a mesma lógica: composição entre PL e NOVO para unificar o campo da direita. Nos últimos dias, mais de uma conversa ocorreu de lado a lado. A articulação parece caminhar para um acordo que juntaria Jorginho e Adriano no Executivo estadual, enquanto Carlos e Carol Bolsonaro seriam lançados ao Senado.  

No papel, a engenharia parece simples. Na prática, nem tanto. Carlos Bolsonaro não é catarinense — é carioca. E de candidato importado, Santa Catarina já tem experiência suficiente para saber que o discurso nem sempre acompanha o CPF. Além disso, essa chamada “direita catarinense” abriga mais nomes, mais projetos e mais ambições do que o roteiro sugere.  

A pergunta que começa a ecoar nos bastidores é inevitável: onde ficarão os demais? Política não é só soma de forças; é também gestão de egos, territórios e expectativas. E quando a conta não fecha, alguém sempre fica do lado de fora.  

A política real ensina que unir é mais difícil do que anunciar a união. E que chapas montadas apenas para parecer fortes costumam revelar suas fragilidades antes mesmo da largada.  


MDB no altar, União Progressistas à espera e Amin fora da foto  

O MDB, um dos maiores partidos de Santa Catarina, corre o risco de ser a noiva abandonada no altar. Se a ideia de composição de Jorginho Mello com o NOVO se confirmar, o governador consegue, numa única tacada, retirar do seu projeto de poder tanto o MDB quanto a federação União Progressistas. Um movimento que pode reorganizar o tabuleiro estadual e empurrar forças relevantes para outros caminhos — inclusive para o colo de João Rodrigues, ou para o surgimento de novos nomes na corrida eleitoral.  

Do lado do MDB, o roteiro parecia definido. O partido já havia escolhido seu nome para a composição: o deputado federal Carlos Chiodini, figura de centro, com trânsito e perfil de equilíbrio. Pelo MDB, nada mudou. Continua parceiro, continua na base e continua com um pré-candidato a vice colocado. O problema é quando só um lado mantém o acordo.  

Já no campo da federação União Progressistas, o esforço tem sido visível. Esperidião Amin trabalha intensamente para atrair o eleitorado bolsonarista e cavar espaço na chapa de Jorginho. Mas a política real nem sempre recompensa fidelidade. Quem manda hoje no PL catarinense não é apenas o capitão — é também seu filho, Flávio Bolsonaro. E ambos já sinalizaram desprezo pelo antigo aliado, para a frustração silenciosa do PP.  

Há ainda um detalhe que poucos ignoram, mas muitos fingem não ver. O PSD é base do governo Adriano Silva em Joinville. Tudo indica que existia ali um acordo de cavalheiros. O PL, vale lembrar, é oposição na maior cidade do Estado. Na mesma esteira, MDB e União Brasil também compõem a base municipal. Se todos resolverem sair do governo de Joinville em bloco, a engenharia política pode começar a ranger — e ranger alto. 

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