Willian Giesel
2026 não aceita mais covardes: Uma análise urgente sobre feminicídio em Santa Catarina e no Brasil.
Entre o silêncio da publicidade e a falha das medidas protetivas, o homem catarinense precisa encarar a verdade: o problema é nosso.
Uma Análise Urgente Sobre Feminicídio em Santa Catarina e Brasil2026 não aceita mais covardes.
Se existe algo que precisa ser dito sem anestesia é isto: a violência contra a mulher é um problema criado, mantido e reproduzido por homens. Não é exceção. Não é desvio. É sistema.
Mas não é um sistema abstrato. Em Santa Catarina, em 2025, 52 mulheres foram mortas apenas por serem mulheres. Isso significa uma mulher a cada semana. Não são números em um relatório. São vidas que não voltarão para casa. São filhas, mães, amigas, colegas de trabalho que desapareceram porque alguém, um homem que conheciam, que dormia ao lado delas, que era pai de seus filhos e decidiu que sua vida não valia nada.
E enquanto você, publicitário, empresário, comunicador ou líder tratar isso como "pauta das mulheres", estará ajudando a empurrar mais uma delas para a estatística.
No Brasil, em 2025, foram 1.470 feminicídios. Em dez anos, de 2015 a 2024, esse número cresceu 176%, passando de 527 casos para 1.455. Não é flutuação. É escalada. É epidemia.
O feminicídio não começa no gatilho nem na faca
Ele começa na piada que você não cortou no grupo de WhatsApp. No assédio que você fingiu não ver na agência. No critério de promoção manipulado para favorecer um "parça". Na invisibilidade de mulheres em posições de poder na sua empresa. No algoritmo que você desenvolveu sem questionar que vieses reproduz.
O silêncio comunica a conivência.
Mas aqui está o detalhe que muitos artigos sobre feminicídio omitem: 8 em cada 10 feminicídios ocorrem no contexto de relacionamentos íntimos. Não é o criminoso desconhecido que aterroriza a rua. É o companheiro. É o ex-marido. É o homem que ela escolheu, que ela amava, que a conhecia melhor do que ninguém. 90% dos feminicídios envolveram maridos ou ex-maridos.
Isso muda tudo. Porque significa que o feminicídio não é um problema de segurança pública abstrata. É um problema de relacionamentos, de controle, de posse. É o homem que diz "se não for minha, não será de ninguém". É a violência que começa com ciúmes, passa por controle, e termina em morte.
E em Santa Catarina, enquanto 52 mulheres foram mortas em 2025, 225 tentativas de feminicídio foram registradas. Isso significa que para cada mulher morta, há quatro que escaparam por pouco. Quatro que conhecem o rosto do medo. Quatro que sabem o que é ser quase morta pela pessoa que amavam.
O mito do “eu sou um cara legal”
Sempre que essa ferida é tocada, surge o coral dos ofendidos.
“Na minha época não tinha esse mimimi.”
“Eu ajudo minha mulher em casa.”
“Eu sou bom para as mulheres.”
Vamos alinhar o repertório: ajudar em casa não é mérito, é obrigação. Ser “legal” não é virtude, é o mínimo civilizatório. O problema não está fora. Está dentro.
Se você é respeitoso em casa, mas se cala diante da misoginia dos seus amigos para não “estragar o clima”, sua bondade é apenas uma máscara elegante para a omissão.
Carnaval, Oscar e a estética do respeito
Estamos às portas do Carnaval, a maior expressão cultural do país. Em Santa Catarina, ele pulsa entre Florianópolis e Joinville e está em bares, ruas e danceterias espalhadas por todo o nosso estado, ocupa avenidas, movimenta economias e constrói identidade. Mas é também o território onde o “não” feminino costuma ser ignorado com naturalidade assustadora. Repita comigo: NÃO é NÃO.
Enquanto torcemos pelo Brasil no Oscar e celebramos um cinema nacional que gera bilhões e empregos, precisamos entender algo simples: criatividade sem ética é só espetáculo. A comunicação em 2026 não pode ser apenas bonita. Precisa ser corajosa. Precisa salvar vidas.
O Pacto Nacional: Todos por Todas (Mas Sem Ações Efetivas)
Os Três Poderes lançaram, em 4 de fevereiro de 2026, o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, batizado com o lema "Todos Por Todas". Isso não é um pedido educado. É prioridade do Estado.
O Pacto estabelece quatro eixos principais: prevenção (educação desde a primeira infância), proteção (medidas protetivas e avaliação de risco), responsabilização (julgamento rápido de agressores) e garantia de direitos (dignidade, autonomia e liberdade para vítimas).
Isso é importante. Mas aqui vem a crítica necessária: o Pacto foi lançado com diretrizes iniciais, mas sem ações efetivas definidas. Faltam protocolos administrativos. Faltam recursos alocados. Faltam gestores responsabilizados pelo cumprimento.
Em Santa Catarina, a situação é ainda mais grave: 7.500 casos de descumprimento de medidas protetivas foram registrados em 2024, representando uma alta de 9% em relação a 2023. SC é o 2º estado com maior taxa de descumprimento. Isso significa que mulheres têm uma ordem judicial para se proteger, mas ninguém a cumpre. A lei existe, mas não funciona.
O acerto central do Pacto é óbvio e incômodo: meninos e homens precisam ser o foco. Não campanhas cor-de-rosa no Dia da Mulher. Educação real, desde a primeira infância, sobre respeito, consentimento e igualdade.
Uma campanha recente no Paraná viralizou ao perguntar: "Escolha três mulheres que você ama para sofrerem violência." O choque funcionou porque o homem médio só reage quando a dor ganha o rosto da mãe, da filha ou da esposa. Como comunicadores, nosso dever é nacionalizar esse choque e transformá-lo em mudança estrutural.
IA e Santa Catarina: tecnologia com ética ou barbárie em escala
Santa Catarina é polo de inovação. Mas para que serve a Inteligência Artificial se ela amplifica misoginia, cria deep fakes de violência ou reproduz vieses de gênero?
Em 2026, IA precisa ser infraestrutura ética.
Na SCReal e na ideiAzul, não seremos neutros.
Tecnologia sem propósito humano é só barbárie em alta velocidade.
Um chamado aos homens da publicidade
Chega de campanha cor-de-rosa no Dia da Mulher.
Chega de discurso progressista vazio.
É hora de agir:
Revisão de conteúdo: sua marca ainda glorifica o homem agressivo e empurra a mulher para o cuidado? Mude agora.
Educação interna: treinamento contra machismo estrutural é mais urgente que happy hour.
IA humana: desenvolva sistemas que denunciem o ódio, não que lucrem com ele.
Conclusão: Constância, Não Grito
Combater feminicídio não exige grito. Exige constância. Exige assumir: eu fiz parte disso, mas paro o ciclo agora.
Em 2026, nossa criatividade vai tocar hardcore contra o machismo. Não será bonita. Será verdadeira. Será incômoda. Será necessária.
Se você é homem e se sentiu ofendido por este texto, você é parte do problema. Se você se sentiu convocado, seja bem-vindo à solução.
Uma mulher morre a cada semana em Santa Catarina. Não é número. É vida. Não é pauta. É emergência.
Recursos e Contatos
Telefone 180 — Central de Atendimento à Mulher
•Disponível 24 horas, 7 dias por semana
•Gratuito e sigiloso
•Orientação, encaminhamento e proteção
Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015)
•Tipifica feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio
•Pena: 12 a 30 anos de reclusão
•Completa 10 anos em 2025 sem redução significativa de casos
Observatório da Violência Contra Mulher (OVM) — SC
•Monitora casos em Santa Catarina
•Publica relatórios anuais com dados consolidados
•Ferramenta importante para acompanhamento local
Pacto Nacional "Todos por Todas"
•Lançado em 4 de fevereiro de 2026
•Diretrizes: prevenção, proteção, responsabilização, garantia de direitos
•Visite: todosportodas.br
Referências
Ministério da Justiça e Segurança Pública. Dados de feminicídios 2024-2025. Portal do Governo Federal.
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Dados sobre contexto de relacionamento em feminicídios.
Observatório da Violência Contra Mulher (OVM). Relatórios de feminicídio em Santa Catarina 2023-2025. Tribunal de Justiça de Santa Catarina.
Câmara dos Deputados. "Estudo mostra que mulheres negras são as maiores vítimas de feminicídio no país". 26 de novembro de 2025. Pesquisa "Quem são as mulheres que o Brasil não protege?" realizada pela Fundação Friedrich Ebert.
G1. "Três Poderes lançam pacto contra o feminicídio com diretrizes iniciais, mas sem ações efetivas definidas". 4 de fevereiro de 2026. Portal de Notícias Globo.
SOBRE O AUTOR:

Willian Giesel Silva é apaixonado por formatos inovadores e acorda todos os dias para desafiar o comum. Publicitário, designer gráfico e provocador de ideias, atua onde estratégia encontra estética e onde criatividade precisa resolver problemas reais. Gosta de liderar a mudança, mas respeita o ritual.
Observa Santa e Bela Catarina com carinho e otimismo e transforma esse olhar em textos sobre marketing, inteligência artificial e comportamento digital. Co-líder da IdeiAzul, acredita que criatividade é trabalho coletivo e que boas soluções nascem do encontro entre visão, método e ousadia.
Saiba mais em: ideiazul.com | Instagram: @williangiesel | Email: willian@ideiazul.com



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