André Bovenzi
Como o Brasil entra numa pesquisa
O método por trás dos números
Em ano eleitoral presidencial, começam a aparecer pesquisas de vários institutos pelo Brasil e uma das perguntas que mais ouço, quando divulgam uma pesquisa para avaliar a intenção de voto para Presidente é: "Mas vocês entrevistam o Brasil inteiro?"
Não. E é justamente por isso que a pesquisa funciona.
Pesquisa eleitoral nacional não é censo. Não precisa falar com todos os municípios para representar o país. O que os institutos fazem é montar um recorte do Brasil real, distribuindo entrevistas de forma proporcional e estratégica.
É o mesmo princípio de um exame de sangue. O laboratório não retira todo o seu sangue para saber como está sua saúde. Ele coleta uma amostra pequena, mas suficiente para representar o organismo inteiro.
Também é como provar um caldeirão de sopa. Para saber se o tempero está certo, não é preciso beber tudo, basta uma colher bem misturada. Se a amostra é bem feita, o resultado representa o conjunto.
Com as pesquisas funciona igual.
O país é dividido pelas cinco grandes regiões - Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul - e cada uma recebe peso conforme o tamanho do seu eleitorado. Regiões mais populosas tem mais entrevistas e regiões menores, menos. É matemática, não preferência.
Dentro dessas regiões entram estados e municípios que representam diferentes perfis do país. Não se escolhem apenas capitais. A pesquisa mistura metrópoles, cidades médias e municípios menores. O objetivo é captar o eleitor urbano, o de interior, o de região industrial, o de área agrícola, o de renda alta e o de renda baixa. O Brasil é diverso demais para caber em um único tipo de cidade.
Também entram critérios sócioeconômicos, como escolaridade, renda, ocupação e perfil demográfico. A amostra precisa parecer com o Brasil, só que em escala reduzida. É como fazer uma maquete do país em forma de entrevista.
Outro fator relevante é o histórico eleitoral. Algumas regiões ajudam a identificar tendências porque refletem movimentos que depois se espalham.
Na prática, um levantamento nacional poder ter cerca de duas mil entrevistas distribuídas em mais de 100 municípios. Estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro concentram mais pontos porque concentram mais eleitores. No Sul, cidades como Porto Alegre, Curitiba ou Joiville ajudam a representar o perfil regional.
A coleta pode ser presencial, telefônica ou online. Cada instituto escolhe sua metodologia, o que explica diferenças entre pesquisas. Não é que alguém esteja "errando", é que estão medindo o país por Ângulos diferentes.
Por isso é importante lembrar: pesquisa não é fotografia de cada cidade, é estimativa do conjunto do país.
Ela aponta tendências dentro de uma margem de erro, normalmente entre dois ou três pontos percentuais. É um retrato estatístico, não uma contagem voto a voto.
E ainda há transparência, pois toda pesquisa divulgada em ano eleitoral, precisa ser registrada no TSE e precisa informar as cidades pesquisadas, quantidade de entrevistas e a metodologia aplicada.
No fim, a lógica é simples: a pesquisa não tenta falar com todo mundo, ela tenta falar com um grupo que representa todo mundo.
É assim que o Brasil, com suas diferenças regionais, sociais e culturais, cabe dentro de uma amostra bem construída.
Curiosidade da semana
Em pesquisas nacionais, o que mais pesa não é o tamanho da amostra, é a qualidade da distribuição geográfica e o equilíbrio do perfil dos entrevistados.
André Bovenzi
Diretor da DNA Pesquisas
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