Alexandre Santos
Entre o PISA e a COP30, a educação revela o limite
Educação que transforma
Divulgacao A COP 30 passou por Belém e, quando a agenda oficial terminou, ficou uma pergunta que não entrou nos documentos finais. Quem está pronto para executar o que foi prometido?
Essa pergunta é ainda mais complexa quando se olha para a base educacional que sustenta a agenda climática. E aqui não falta evidência. O que falta é encarar o que ela mostra. Alguns dados do PISA ajudam a organizar esse incômodo.
Quando se observa a distribuição das atitudes ambientais entre estudantes, o quadro já nasce fragmentado. Quase metade dos estudantes dos países avaliados reúne as três dimensões essenciais — consciência, senso de responsabilidade e capacidade de compreensão — enquanto cerca de 6% não apresenta nenhuma dessas atitudes¹. O restante se distribui em combinações incompletas, e Isso não é apenas um detalhe.
Tem estudante que conhece o tema, mas não se sente responsável.
Tem estudante que se sente responsável, mas não entende o problema.
Tem estudante que entende, mas não transforma isso em ação.
Quando se olha para comportamento, os dados do PISA confirmam essa fragmentação. Apenas cerca de 20% dos estudantes participam ativamente de ações ambientais, enquanto uma proporção semelhante não participa de nenhuma². O resto oscila entre intenção difusa e baixa mobilização. O problema está na integração que não acontece. A sensibilização existe. Está dada. O que falta é juntar as peças. Consciência, capacidade e responsabilidade seguem caminhos separados.
No caso brasileiro, isso aparece de forma bastante concreta. No cruzamento entre consciência ambiental e capacidade de explicação, o país fica num ponto intermediário, mas com descolamento relevante. Algo como 65% a 70% dos estudantes dizem conhecer o tema, enquanto menos de 45% afirmam conseguir explicar fenômenos como emissões de carbono e mudança climática³. Existe familiaridade, mas falta domínio do assunto. Isso ajuda a entender por que a agenda climática trava na execução.
Quando se conecta atitude com desempenho, o efeito é ainda mais forte. De acordo com o PISA, estudantes que reúnem as três dimensões apresentam desempenho em ciência próximo de 100 pontos acima daqueles que não apresentam nenhuma. Mesmo controlando o nível socioeconômico, a diferença permanece em torno de 82 pontos⁴.
O dado mais revelador está no meio da distribuição.
Estudantes com duas dimensões, especialmente consciência combinada com capacidade de compreensão, apresentam ganhos de cerca de 63 pontos
Quando a combinação é consciência com senso de responsabilidade, o ganho gira em torno de 47 pontos
Com apenas uma dimensão, o efeito cai para algo entre 12 e 32 pontos⁴
Isso importa porque revela que as dimensões não se substituem, elas se acumulam. Consciência sem capacidade não sustenta decisão. Capacidade sem responsabilidade não gera ação. Responsabilidade sem compreensão vira gesto vazio.
Quando isso é trazido para o funcionamento real da política pública, o diagnóstico deixa de ser abstrato. Durante minha atuação na OEI, na preparação da COP, essa questão apareceu de forma recorrente. Existia financiamento. Existia agenda. O gargalo surgia na hora de estruturar projetos que atravessassem a exigência técnica mínima. Teve um caso que ficou evidente. Uma proposta com impacto ambiental claro, bem articulada politicamente, não avançou, pois travou na modelagem. Indicadores frágeis, ausência de linha de base, dificuldade de estruturar acompanhamento. Havia intenção, mas faltava capacidade. Chama de detalhe quem nunca teve que fazer isso funcionar.
A LDB já estabelece a formação para a vida. O Plano Nacional de Educação insiste em qualidade com equidade. Mas o que esses dados mostram é que, em um dos temas mais estratégicos do país hoje, essa formação ainda chega de forma desigual e incompleta. Sustentabilidade deixou de ser pauta de conscientização. Virou pauta de decisão. E decisão exige repertório. A COP consolidou compromissos. Mas os dados mostram o que está por baixo deles. Uma base que ainda forma mais familiaridade do que domínio — e, por isso, entrega menos execução do que o discurso promete.
Notas
¹ OECD. Are Students Ready to Take on Environmental Challenges? PISA 2018. Figura 3.4 — Overlap of environmental attitudes (p. 45).
² OECD. Are Students Ready to Take on Environmental Challenges? PISA 2018. Executive Summary (p. 11).
³ OECD. Are Students Ready to Take on Environmental Challenges?




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