Da propaganda totalitária ao tradicionalismo digital, o renascimento de um movimento nocivo: os novos sofistas

Artigo de Elton Zattar Guerra

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Antes de falarmos dos sofistas da atualidade, é importante contextualizar o surgimento da filosofia e o ambiente histórico que possibilitou o nascimento tanto do pensamento racional quanto de suas distorções retóricas.

A filosofia é o estudo racional sobre a existência, o conhecimento, a verdade, a ética, a mente e a linguagem. A palavra vem do grego philos (amor) e sophia (sabedoria), significando “amor à sabedoria”. Ela surgiu na Grécia Antiga, no século VI a.C., como uma tentativa de explicar a realidade de forma racional, afastando-se das explicações míticas.

Enquanto a filosofia buscava a verdade por meio da razão, emergia paralelamente um movimento que privilegiava a persuasão acima da verdade: os sofistas. Mestres da retórica, eles ensinavam técnicas argumentativas capazes de defender qualquer posição, independentemente de sua veracidade, relativizando a noção de verdade e transformando o discurso em instrumento de poder.

A mentira e a manipulação do discurso sempre acompanharam a humanidade. No entanto, ao longo do século XX, essas práticas ganharam um grau de sofisticação sem precedentes, especialmente com a sistematização da propaganda política.

A sofística moderna e a propaganda nazista

Entre a sofística clássica da Grécia Antiga e a atual sofística digital, existe um elo histórico fundamental: a propaganda política desenvolvida no contexto do nazismo. Sob a coordenação de Joseph Goebbels, a retórica foi elevada à condição de política de Estado. A verdade factual perdeu relevância diante da capacidade de moldar percepções coletivas por meio da repetição, da emoção e da criação de inimigos simbólicos.

A propaganda nazista instrumentalizou valores tradicionais, identidade nacional e um passado idealizado como elementos centrais de mobilização política. A tradição passou a ser utilizada não como memória histórica, mas como ferramenta retórica, moldada conforme os interesses do poder. Essa lógica representou uma fase intermediária da sofística: centralizada, estatal e altamente organizada.

Os sofistas da atualidade: tradicionalismo e retórica digital

Na contemporaneidade, a sofística ressurge em um ambiente descentralizado e altamente tecnológico. Os novos sofistas não atuam mais exclusivamente a partir do Estado, mas por meio das plataformas digitais, das redes sociais e de influenciadores que se apresentam como vozes autênticas da moral, da família e da tradição.

A combinação entre técnicas modernas de persuasão e uma matriz ideológica tradicionalista constitui o núcleo da sofística digital contemporânea. Valores morais são mobilizados como respostas simples para problemas complexos, criando narrativas emocionalmente potentes e resistentes à crítica racional.

As plataformas digitais amplificam esse fenômeno ao privilegiar conteúdos que geram engajamento emocional. Nesse ambiente, a verdade passa a competir com versões da realidade moldadas por crenças, medos e identidades coletivas. Assim como na sofística clássica e na propaganda totalitária, a persuasão volta a se sobrepor à verdade.

Diante desse cenário, o combate à nova sofística não pode se limitar a respostas jurídicas ou tecnológicas. Ele exige educação crítica, alfabetização digital e o fortalecimento do compromisso coletivo com a verdade. Em tempos de desinformação, defender a razão e o pensamento crítico torna-se um ato político fundamental.




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