Willian Giesel
Por que não existe arquiteto ruim (e o que isso revela sobre criatividade em Santa Catarina)
Uma reflexão sobre método, sensibilidade e o impacto da arquitetura na comunicação catarinense, e por que esse ofício parece nascer imune ao improviso.
Uma leitura sobre o papel da arquitetura no ecossistema criativo de Santa Catarina e por que esse ofício ensina tanto sobre comunicação, marca e processo.Por que não existe arquiteto ruim (e o que isso revela sobre criatividade em Santa Catarina)
Nos últimos dias, enquanto mergulhava no processo de criação da marca de um estúdio criativo de um grande amigo arquiteto, me peguei fazendo uma pergunta que nunca tinha me ocorrido. Entre referências contemporâneas, nomes vanguardistas e estudos de forma, enquanto eu montava o moodboard do projeto, a reflexão veio quase como um susto criativo:
Eu não conheço um arquiteto ruim.
Juro. Procurei, puxei da memória, tentei lembrar de alguém realmente fraco e não achei. E foi aí que esse artigo começou.
Porque bastou comparar mentalmente com o meu próprio universo, publicidade, marketing e design, para notar algo curioso. No nosso mercado, existe de tudo: gente genial, gente boa, gente mediana, gente ruim. Eu mesmo já me coloquei várias vezes nesse território intermediário, aquele limbo entre “não sou ruim” e “não sou incrível”.
Mas na arquitetura, não. É um filtro de qualidade brutal. E é exatamente nessa disciplina que a gente encontra a pista de ouro sobre o jeito catarinense de fazer as coisas.
O rigor que não dá para pular
Percebi que arquitetura é um ofício onde improviso não dura.
Você até pode ter estilo, mas não pode ter descuido. Pode ter personalidade, mas não pode ter irresponsabilidade. Pode ousar, mas precisa calcular.
A arquitetura exige método, história, repertório, técnica, sensibilidade e, acima de tudo, consequência. Erros ganham peso. Decisões influenciam vidas. E o tempo cobra tudo.
Enquanto um layout pode ser trocado, refeito ou ajustado, uma obra, um espaço e uma experiência arquitetônica têm uma permanência que molda cidades, rotinas e pessoas. Esse senso de responsabilidade naturalmente filtra os profissionais.
E talvez por isso “arquiteto ruim” seja uma raridade.
Arquitetura é comunicação, só que em escala real
Criar uma marca, um conceito ou uma identidade visual tem muito a ver com arquitetura.
E foi isso que me atravessou enquanto montava o moodboard do estúdio do meu amigo.
A arquitetura comunica. Ela fala antes que você fale. Ela organiza sensações. Ela desenha comportamento. Ela molda o que você sente ao entrar e ao sair.
Um edifício, um estúdio, uma fachada, um interior, tudo é narrativa.
E quando penso em branding, posicionamento e construção de valor, vejo claramente: arquitetos têm um repertório que muitas vezes falta ao mercado criativo. Eles não pensam apenas onde algo fica, mas por que fica. Não escolhem materiais pela estética, mas pela intenção. Não organizam um espaço, contam uma história com ele.
Isso, para mim, é pura comunicação.
A cara de Santa Catarina está nos arquitetos
Santa Catarina sempre teve uma relação especial com arquitetura.
Talvez por influência europeia, talvez pelo encontro de estilos, talvez pela mistura entre litoral, serra e indústria. O fato é que temos um estado com muita identidade construída.
E isso se reflete no mercado:
Escritórios pequenos com pensamento global
Arquitetos autorais que imprimem sensibilidade no detalhe
Profissionais que entendem o clima, a cultura e o comportamento local
Projetos que combinam contemporaneidade com aconchego
Gente que pensa função, forma e alma ao mesmo tempo
É bonito perceber o quanto o jeito catarinense de projetar influencia o jeito catarinense de comunicar. Se temos boas marcas, bons produtos, bons projetos e boas experiências, é porque muitos arquitetos, conhecidos e desconhecidos, seguram uma ponta essencial dessa rede criativa.
O que a publicidade pode aprender com eles
O insight mais forte que ficou do meu processo de criação foi este:
Arquitetos fazem o caminho completo. Sempre.
Eles:
estudam antes de criar
pesquisam antes de propor
respiram antes de desenhar
constroem antes de decorar
justificam cada decisão
e trabalham com o tempo, não contra ele
E isso faz uma falta imensa no nosso mercado.
Talvez por isso o nosso ecossistema catarinense seja tão interessante. Quando publicidade, design e arquitetura se encontram, surgem projetos que não só vendem, permanecem.
O final dessa história (que não termina aqui)
No fim das contas, criar a marca desse estúdio me lembrou de algo essencial:
Arquitetura é uma arte que não aceita preguiça criativa.
E Santa Catarina parece ter entendido isso faz tempo. Aqui, não construímos apenas prédios. Construímos ambientes que comunicam. Construímos identidades que acolhem. Construímos histórias que duram.
Talvez seja por isso que eu não conheço arquitetos ruins. Porque, neste estado, arquitetar é mais do que desenhar uma planta. É usar o compasso da Sabedoria para construir uma base que resiste ao tempo e cuidar da forma como a gente vive dentro dela.
Semana que vem seguimos explorando esse encontro entre comunicação, criatividade e Santa Catarina, esse terreno fértil onde boas ideias encontram método, forma e propósito.
Biografia:
Willian Giesel Silva é apaixonado por formatos inovadores e acorda todos os dias para desafiar o comum. Publicitário, designer gráfico e provocador de ideias, atua onde estratégia encontra estética e onde criatividade precisa resolver problemas reais. Gosta de liderar a mudança, mas respeita o ritual.
Observa Santa e Bela Catarina com carinho e otimismo e transforma esse olhar em textos sobre marketing, inteligência artificial e comportamento digital. Co-líder da IdeiAzul, acredita que criatividade é trabalho coletivo e que boas soluções nascem do encontro entre visão, método e ousadia.
Saiba mais em: ideiazul.com | Instagram: @williangiesel | Email: willian@ideiazul.com



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