Wagner Dias - PodMorar
Entre Chaves, Contratos e Promessas:
Os Bastidores do Mercado Imobiliário
No universo do mercado imobiliário, onde cada metro quadrado parece carregar uma história, uma promessa e, às vezes, uma dor de cabeça, reencontrar o advogado Gustavo Camacho é como abrir uma janela e deixar entrar um ar de lucidez. Ele chega sempre com aquela combinação rara: conhecimento técnico e didática de quem sabe que o assunto é complexo, mas não precisa ser complicado.
Na conversa, quase um café filosófico sobre tijolos, contratos e ilusões, começamos por um tema que rende mais dúvidas do que metros quadrados vendidos: comprar imóvel na planta.
Gustavo não romantiza o assunto. Ele lembra que quando alguém compra um imóvel que ainda nem existe, o que segura na mão é “uma promessa”. E promessa, como sabemos, precisa de estrutura. Por isso ele insiste: antes de assinar, é preciso conhecer a incorporadora, investigar o histórico, analisar a documentação, e entender algo que muita gente nem sabe que existe — como o tal patrimônio de afetação, que impede que uma obra seja usada para pagar o rombo de outra. É a velha lógica que ele resume com humor: “a gente aposta no cavaleiro, não no cavalo”.
A segurança jurídica, explica ele, é o que diferencia um sonho de um pesadelo. E em meio a essas explicações, Gustavo ainda comenta o ruído recente provocado por uma decisão isolada do STJ sobre multas de desistência — o tipo de detalhe que parece distante da rotina das pessoas, mas que pode virar um problema enorme na vida real.
Mudando de assunto, mas sem sair do território das dores imobiliárias, entramos num drama típico do mercado: o corretor faz todo o trabalho, apresenta o imóvel, conduz visitas, tira dúvidas, mas no fim o cliente tenta “comprar direto”. Quem vive disso conhece bem o golpe. E Gustavo revela o que para muitos é novidade: o termo de visita.
Esse documento simples, assinado no tablet ou no papel, é a prova que garante ao corretor o direito aos seus honorários. Sem ele, explica Gustavo, o profissional pode fazer todo o esforço e acabar de mãos abanando. Com ele, a história muda. Parece burocracia — e é — mas é aquela burocracia que salva o profissional de cair num buraco jurídico sem fim.
E quando o papo parecia já completo, surge um dos fenômenos mais curiosos do setor: os compradores que se recusam a receber as chaves. Uns porque não querem começar a pagar condomínio. Outros porque encontraram defeitos. Outros, simplesmente, porque não estão com pressa. Gustavo separa o joio do trigo: há vícios aparentes, há vícios ocultos, há problemas graves e há detalhes cosméticos. Há também contratos que deveriam ser mais claros — e incorporadoras que deixam de se proteger por não preverem a incidência das despesas a partir do habite-se.
Em situações extremas, diz ele, a incorporadora pode até entrar com uma ação de consignação de chaves. É quase como guardar o carro na garagem e avisar: “Está aqui, pronto para você – só falta você pegar.”
E entre termos técnicos, histórias de corredores de venda, disputas por comissão e entregas de obra, Gustavo desenha com precisão o que muita gente só percebe quando vive na pele: o mercado imobiliário é feito de detalhes. Pequenos termos, cláusulas discretas, documentos que parecem bobos, mas que decidem o futuro de uma negociação inteira.
No fim, entender esse mundo é perceber que um imóvel não é só concreto. É processo, é responsabilidade, é direito — e às vezes é até drama.
E é por isso que conversar com quem entende, como Gustavo Camacho, é quase como receber as chaves de um novo olhar: uma visão sólida, documentada e sem vícios — nem aparentes, nem ocultos.



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