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Willian Giesel

Feminicídio: não é falta de opinião, é falta de ação.

Eles concordam. Aplaudem. E não fazem nada. Mas eu não vou desistir.

Willian Giesel Silva
 Feminicídio: não é falta de opinião, é falta de ação. Entre o Silêncio e o Grito.

Na semana passada, 2 milhões de pessoas foram a Copacabana ver uma mulher lobo rugir no palco. Shakira entrou no Rio de Janeiro vestindo as cores do Brasil, falou em português, e dedicou o show às mulheres. "Cada vez que caímos, nos levantamos mais fortes", ela disse. O Rio aplaudiu. O Brasil aplaudiu. O mundo aplaudiu.


E enquanto isso, em Santa Catarina, o contador não parou.

20 mulheres mortas em 4 meses. O maior número já registrado na história de SC.

Santa Catarina registrou um aumento de 66% nos casos de feminicídio em 2026. Até o dia 20 de abril, já foram contabilizados 20 homicídios cometidos por razões de gênero, oito a mais do que nos primeiros quatro meses de 2025. São dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública de SC (Fonte: SSP-SC / RD Comunicação, abril de 2026). É o maior número já registrado para o período desde o início da série histórica, em 2016.

A cada cinco dias, uma mulher foi vítima de feminicídio em SC nos primeiros meses do ano (Fonte: NSC Total, abril de 2026).

Esses não são dados de outro país. São dados do estado onde muitos dos homens que leram meu último artigo sobre feminicídio responderam: "concordo plenamente", "parabéns, Willian", "assunto importantíssimo." E depois fecharam o celular e foram dormir.

Esse é o ciclo que eu precisava nomear hoje. Não o ciclo da violência, esse já nomeei antes. É o ciclo da concordância inerte. O ciclo do homem que acha que concordar já é suficiente. Que curtir o post resolve. Que dizer "isso é errado" no ambiente digital substitui dizer "isso é errado" na mesa com o amigo que faz a piada, que controla a mulher, que "só está brincando."


Em Joinville, aconteceu há menos de uma semana.

Joinville, a cidade onde eu vivo, lidera o ranking de feminicídios em números absolutos em Santa Catarina: 20 mulheres assassinadas por razões de gênero entre 2020 e 2024, à frente de Florianópolis, Blumenau e Chapecó, segundo o Mapa do Feminicídio elaborado pelo MPSC (Fonte: NEAVIT/MPSC, levantamento 2020-2024, publicado pelo ND Mais em abril de 2026).

E na última terça-feira, dia 28 de abril, o número ganhou rosto de novo.

Um homem de 28 anos invadiu um supermercado no bairro Vila Nova para atacar a ex-companheira de 20 anos. Ela estava trabalhando. Ele a seguiu pelos corredores e a esfaqueou várias vezes no peito, nas mãos e nas costas. Motivação declarada em depoimento à polícia: não aceitava o término do relacionamento (Fonte: ND Mais / Aconteceu em Joinville, 28 e 29 de abril de 2026).

A vítima está internada em estado grave no Hospital Municipal São José. O quadro piorou após a internação inicial (Fonte: ND Mais, 30 de abril de 2026).

Ela estava no trabalho. Em um supermercado. No meio de outras pessoas.

E ele foi até lá.


"Daqui a pouco não dá nem pra falar com mulher."

Ouvi isso recentemente. De um homem adulto, respeitado, bem-intencionado no seu próprio entendimento. E ouvi também a clássica que veio logo depois: "nem assobiar mais pode."

Respirei fundo. Respondi com calma e com convicção: se ela não deu permissão, você não pode tocar nela. Isso não é novidade. Isso é o mínimo que se espera de qualquer ser humano. E acrescentei: nenhuma mulher que eu conheço tem medo de homens que pedem permissão. O medo é sempre do que não pede, do que não respeita, do que acha que o corpo da mulher é território público.

Ele ficou em silêncio. E o silêncio, dessa vez, foi o certo.

Me pergunto, genuinamente, qual homem na história da humanidade conquistou uma mulher começando com um assobio de rua. Qual romance nasceu assim. Qual família foi construída a partir de uma mulher assobiada na calçada que pensou: "esse é o homem da minha vida."

Nenhum. Nunca. Nem em filmes. Talvez em algum comercial de construção civil dos anos 80. Mas provavelmente essa empresa e essa agência não existem mais.

O que o assobio sempre produziu foi constrangimento, medo e a sensação de que o espaço público não pertence a elas. Só isso. E enquanto alguns homens ainda debatem o direito de assobiar, quatro mulheres foram assassinadas em Santa Catarina em menos de 48 horas, entre os dias 18 e 19 de abril. Tatiane Zanaro, Erika Borges, Bárbara de Silveira Bagé e Karen Gabrielle Magalhães Pena. Mulheres com nomes, com histórias, com sonhos (Fonte: NSC Total / SSP-SC, abril de 2026).

O machismo estrutural não é só o que grita. É o que desvia. É o homem que transforma a conversa sobre mulheres mortas em reclamação sobre liberdade masculina ameaçada.


83,3% das vítimas não tinham boletim de ocorrência. E ainda assim morreram.


Em 83,3% dos casos de feminicídio registrados em SC em 2026, a vítima não tinha boletim de ocorrência contra o autor no momento do crime. A maioria das vítimas tinha entre 35 e 39 anos e era ex-companheira do agressor (Fonte: Painel de Violência Contra a Mulher em SC, SSP-SC, dados até março de 2026, publicado pelo Peperi).

Marivane trocou as fechaduras de casa. Pediu medidas protetivas. Registrou boletins de ocorrência. Ele invadiu mesmo assim e a espancou até a morte.

A lei existe. O papel existe. O sistema falha. E enquanto o sistema falha, a cultura que produziu o agressor segue intacta, nas piadas toleradas, no controle romantizado, no silêncio dos que viram e não disseram nada.

Se quiser entender como escrevi sobre dissonância cognitiva e o custo desse silêncio coletivo, esse artigo anterior pode ajudar.


Feminicídio não é pauta de esquerda, direita ou qualquer outra ideologia política. É pauta de quem tem mãe.

Vou ser direto com o homem que chegou até aqui ainda desconfiado: eu faço isso pela minha mãe. Pela minha irmã. Pela minha esposa. Pela minha filha. Pelas minhas amigas. Por todas as mulheres, inclusive aquelas que ainda acham que esse debate não tem relevância.

Não faço isso porque sou progressista ou conservador. Faço porque sou filho. Marido. Pai. E porque dados não têm partido.

Há meses venho desenvolvendo um projeto, o Homens Pela Vida, que parte de uma premissa simples e incômoda: o feminicídio não é um problema delas. É uma falha nossa. E se fomos nós que ajudamos a construir essa cultura, somos nós que precisamos ajudar a desconstruí-la.

O projeto é estruturado, orçado e pronto para execução. Mídia exterior em cidades estratégicas de SC. Plataforma digital com dados, sinais de alerta e canais de denúncia. Ciclos de palestras. Um filme manifesto. Estratégia focada especialmente em empresas com maioria masculina no quadro, porque é nas fábricas, nos canteiros, nas salas dominadas por homens que essa conversa precisa acontecer. Porque o agressor também trabalha. Também tem colega. Também tem chefe. E alguém, em algum momento, poderia ter dito algo.

Apresentei esse projeto para grupos de homens influentes em Santa Catarina. Muitos gostaram. Alguns aplaudiram. Todos concordaram que "algo precisa ser feito."

E depois: silêncio.

O mesmo silêncio que mata.


A IA que replica o que somos

Nesse processo todo, usei inteligência artificial para estruturar dados, criar visualizações e organizar o projeto. A IA foi rápida, eficiente, precisa.

Mas a IA não vai lá falar com o amigo. Não vai sentar na mesa com o homem que acha que "feminicídio é coisa de militante." Não vai olhar nos olhos de quem confunde respeito com submissão.

A tecnologia replicou o melhor do que eu coloquei nela. O problema é quando ela replica o pior do que existe em nós, algoritmos que normalizam violência, plataformas que amplificam o ódio porque ódio engaja, redes que transformam cada discussão sobre mulheres mortas em batalha de narrativas onde os dados perdem para o WhatsApp.

Em SC, polo de inovação e tecnologia, temos uma responsabilidade dupla: não deixar que a IA replique uma cultura que ainda tolera a morte de uma mulher a cada cinco dias.


O Rio entendeu o que SC ainda precisa aprender

O show de Shakira movimentou aproximadamente R$ 800 milhões na economia do Rio, reunindo 2 milhões de pessoas em Copacabana (Fonte: Prefeitura do Rio de Janeiro / Riotur, maio de 2026). O investimento público de R$ 15 milhões gerou um retorno financeiro estimado em 40 vezes para a cidade, segundo o próprio prefeito do Rio (Fonte: Investidor10 / Prefeitura do Rio, maio de 2026).

Mas o que mais me ficou não foi o número. Foi a cena.

Uma mulher no palco maior da sua carreira, homenageando mulheres. Falando de força, de resiliência, de lobas que se levantam. E 2 milhões de pessoas, homens e mulheres, respondendo com ovação.

O Rio entendeu que investir em cultura não é gasto. É retorno. Em impostos, em turismo, em autoestima coletiva.

Santa Catarina entende isso para festa da cerveja, para o Oktoberfest. Entende quando o retorno aparece no balanço. Quando o produto é segurança e a vida de uma mulher, o retorno parece abstrato demais para alguns.

Não é. Uma mulher morta é uma família destruída. É trauma intergeracional. É filho criado sem mãe. É custo invisível no balanço, mas devastador na realidade.


A mente que mente: dissonância cognitiva e o silêncio que mata. Como a busca pelo conforto mental nos torna cegos para a violência e reféns de narrativas convenientes.



O feminicídio tem a nossa assinatura. Enquanto homens se omitem, mulheres morrem.

Essas frases estão no projeto. Deveriam estar nos outdoors das nossas rodovias. Na entrada das nossas fábricas. No início das reuniões de empresas que têm 80% de homens no quadro e nunca tocaram no assunto.

Eu não vou parar. Não porque sou herói. Mas porque já ouvi longe demais o silêncio que aprova.

Estou buscando parceiros e patrocinadores que entendam que responsabilidade social não é logomarca em campanha de Agosto Lilás. É presença antes. É conversa difícil. É o homem que para, olha para o colega, e diz: o que você está fazendo com ela está errado.

Se você lidera uma empresa. Se você tem homens sob a sua liderança. Se você quer que o seu nome apareça do lado certo da história quando alguém contar essa história daqui a vinte anos, entre em contato. O projeto existe. Os dados existem. A urgência, infelizmente, também.

Por elas. Por nós. Pela vida.



Biografia


Willian Giesel Silva é apaixonado por formatos inovadores e acorda todos os dias para desafiar o comum. Publicitário, designer gráfico e provocador de ideias, atua onde estratégia encontra estética e onde criatividade precisa resolver problemas reais. Gosta de liderar a mudança, mas respeita o ritual.

Observa Santa e Bela Catarina com carinho e otimismo e transforma esse olhar em textos sobre marketing, inteligência artificial e comportamento digital. Co-líder da IdeiAzul, acredita que criatividade é trabalho coletivo e que boas soluções nascem do encontro entre visão, método e ousadia.

Saiba mais em: ideiazul.com | Instagram: @williangiesel | Email: willian@ideiazul.com



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